RIO 2016: A GESTÃO DE RISCO NOS JOGOS OLÍMPICOS – A VISÃO DE JORGE LUZZI

RIO 2016: A GESTÃO DE RISCO NOS JOGOS OLÍMPICOS – A VISÃO DE JORGE LUZZI

RIO 2016: A GESTÃO DE RISCO NOS JOGOS OLÍMPICOS – A VISÃO DE JORGE LUZZI

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O Brasil tem vivido nos últimos anos muitas emoções, algumas relacionadas com a sua história, outras totalmente novas. Sabemos que, nos últimos dois anos, o tradicional bom humor, alegria e otimismo dos brasileiros têm sofrido com os problemas políticos do país, mas um novo megaevento, de caráter universal, está prestes a iniciar‐se, e o coração dos brasileiros volta a bater rapidamente face a esta realidade inédita no Brasil. Trata‐se dos Jogos Olímpicos, que se realizam de 5 a 21 de agosto de 2016; e os Paralímpicos, de 7 a 18 de setembro. Jorge Luzzi, Presidente da Herco Global e Diretor de Gestão de Risco da Brokerslink, conta‐nos como o Brasil está se preparando para receber os Jogos Olímpicos Rio 2016, do ponto de vista da gestão de risco.

As cerimônias de abertura e encerramento das Olimpíadas de 2016 serão realizadas no histórico e majestoso Estádio do Maracanã, estando em competição 28 modalidades esportivas, duas a mais do que nos Jogos Olímpicos de Londres, em 2012. O Comitê Executivo do COI decidiu incluir o golfe e o rúgbi sevens como novos esportes olímpicos. Foram estabelecidas quatro zonas olímpicas – Barra, Copacabana, Deodoro e Maracanã.

Quando a cidade do Rio de Janeiro foi eleita sede dos Jogos Olímpicos e dos Paralímpicos de 2016, o Brasil foi confrontado com o desafio de, no reduzido espaço temporal de dois anos entre ambos, organizar dois dos maiores eventos esportivos a nível mundial: a Copa do Mundo de Futebol de 2014 e os Jogos Olímpicos e Paralímpicos de 2016.

Na Copa do Mundo de Futebol, os desafios de infraestrutura logística e de segurança eram enormes. A elevada dispersão geográfica dos estádios onde se realizavam os jogos, agravada pela vastidão do território brasileiro, acarretava avultados riscos ao nível das infraestruturas de transporte, quer em termo das estruturas físicas, quer na segurança dos visitantes e participantes durante as viagens, quer ainda a nível logístico. As medidas de mitigação de risco implementadas foram bem-sucedidas, permitindo reduzi‐los ou quase eliminá‐los. Foi um êxito do ponto de vista organizacional.

Com exceção do futebol, as competições das 21 modalidades destas Olimpíadas realizam-se nos diversos equipamentos esportivos espalhados pelo Rio de Janeiro, uma cidade relativamente pequena para os padrões brasileiros. Esta situação permite reduzir o panorama de risco acima descrito. De referir que as competições de futebol se realizarão nas cidades de Belo Horizonte, Brasília, Salvador, São Paulo e, obviamente, no mítico Estádio do Maracanã. O Comitê Olímpico Rio 2016 tem assim boas expectativas para este evento, quer pela redução do território (e, consequentemente, do risco), quer pela experiência acumulada na gestão de eventos desta magnitude.

As questões relacionadas com a saúde e a capacidade hoteleira oferecida pela cidade-sede são outros riscos que constam do risk mapping do Comitê Olímpico Rio 2016.

No que diz respeito à saúde, há uma clara preocupação com o Zika Vírus (epidemia que está afetando o território brasileiro). Foi dada uma resposta muito rápida por parte das autoridades sanitárias do Estado do Rio de Janeiro e do Estado Federal, bem como das autoridades do Comitê Olímpico. O exército brasileiro foi convocado e um grande número de militares foi mobilizado para localizar os focos de criação dos mosquitos e para a aplicação de larvicida, para reduzir ou eliminar o desenvolvimento do vírus. Felizmente, na altura da realização dos Jogos Olímpicos, estaremos em pleno inverno no Hemisfério Sul, então dificilmente teremos as habituais chuvas tropicais, propícias à proliferação dos mosquitos.

Foram construídos novos hospitais privados, grandes e muito bem equipados, nas proximidades da Vila Olímpica e dos estádios.

Os estudos realizados indicam que o público internacional que assiste a uma Olimpíada é mais pacífico do que o dos mundiais de futebol. Assim, se considerarmos o bom trabalho realizado na manutenção da ordem durante a Copa do Mundo de Futebol, e desde que as autoridades esportivas trabalhem de igual modo, não se esperam grandes dificuldades neste aspecto.

A infraestrutura hoteleira no Rio de Janeiro não será um problema, pois o Rio é uma cidade habituada a receber muitos turistas, com uma grande variedade de hotéis em termos de categorias e preços.

Outro risco para se considerar é o do terrorismo. Ainda que o Brasil não seja habitualmente um país alvo de ações terroristas, estão sendo desenvolvidas diversas iniciativas para mitigar este risco, tal como um maior controle de entradas e reforço das revistas individuais, pois algumas das delegações estrangeiras representadas podem ser alvo de atentados. Este risco está sendo avaliado conjuntamente pelo Comitê Olímpico Brasileiro e as autoridades e comitês olímpicos dos países considerados como potenciais alvos de ataques.

Infelizmente, a Baía de Guanabara não estará descontaminada a tempo dos Jogos, o que é de lamentar, pois seria importante para a competição e para a própria cidade, visto que quase 1.400 atletas irão velejar nas águas da Marina da Glória, na Baía de Guanabara, nadar na Praia de Copacabana, e praticar canoagem e remo nas águas da Lagoa Rodrigo de Freitas.

No que diz respeito à infraestrutura dos estádios, ainda que não seja perfeita, não apresenta grandes problemas e vai estar no nível que é necessário para competições deste nível, assim como a própria Vila Olímpica.

Como em todas grandes atividades humanas existem riscos, que não são os mesmos em todos os lugares e em todas as épocas. Mas as Olimpíadas são um dos eventos universais de maior importância para o ser humano, em que o esporte nos une a todos numa só voz e, como dizia o lendário presidente do Comitê Olímpico Internacional, o Barão Pierre de Coubertin: “que a tocha olímpica siga o seu curso através dos tempos para o bem de uma humanidade cada vez mais entusiasta, corajosa e pura”.

O risco sempre existiu e sempre existirá. Maior ou menor, é uma consequência do tempo em que vivemos. Em todo o caso, são muitas as pessoas que estão trabalhando para que, em nenhuma situação, esta “celebração do homem e da humanidade” – os Jogos Olímpicos – seja colocada em risco, e para que possa assim ser celebrada como o maior espetáculo esportivo do mundo.

Esta é a primeira vez que a América do Sul recebe os Jogos Olímpicos, a segunda na América Latina (Cidade do México/1968), e a terceira no Hemisfério Sul (Melbourne/1956 e Sydney/2000).  

JORGE LUZZI

Jorge Luzzi, uma das personalidades mais influentes do setor de seguros e risco, é o presidente da Herco Global. Luzzi é vice-presidente executivo da IFRIMA (International Federation of Risk and Insurance Management – Federação Internacional de Gestão de Riscos e Seguros) e presidente da ALARYS (Associação de Gestão de Risco da América Latina). Entre 2009 e 2013, foi vice-presidente e presidente da FERMA (Federação Europeia das Associações de Gestão de Riscos e Seguros). Foi ainda, ao longo de muitos anos, diretor de gestão de riscos do grupo Pirelli, na Itália, e CEO da PIRCO e da Pirelli Reinsurance Company, em Dublin, na Irlanda; e em Lugano, na Suíça. Formou‐se em Administração de Empresas pela Universidade de Belgrano e integra o corpo docente da Academia Nacional de Seguros e Previdência no Brasil.