O MERCADO DE SAÚDE BRASILEIRO POR GUSTAVO QUINTÃO

O MERCADO DE SAÚDE BRASILEIRO POR GUSTAVO QUINTÃO

O MERCADO DE SAÚDE BRASILEIRO POR GUSTAVO QUINTÃO

Gustavo Quintão, Diretor de Employee Benefits da MDS Brasil, falou com a FullCover sobre os desafios e as tendências do setor.

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O mercado brasileiro de saúde passa por um momento de profundas transformações. É o inicio de um ciclo disruptivo com duas origens: o fim da proibição de investimento estrangeiro em empresas de assistência à saúde no Brasil e a necessidade de reinventar o modelo existente para permitir a sua sustentabilidade.

De acordo com a Associação Brasileira de Planos de Saúde (Abramge), o setor foi responsável por 9,3% do PIB e, 2014. Em 2015, foi o terceiro maior em geração de empregos com quatro milhões de trabalhadores e um total de 72,2 milhões de beneficiários (sendo 50,3 milhões em planos médicos e 21,9 milhões em planos odontológicos). A mesma instituição aponta que os principais desejos da população brasileira por ordem de prioridade são: educação, casa própria e plano de saúde.

Todos estes números mostram oportunidades de investimento para o capital internacional e um movimento de consolidação e profissionalização do segmento brasileiro de saúde. Tal movimento só passou a ocorrer de maneira clara e estruturada em 2015, após a sanção da Lei 13.097/2015, que altera a Lei 8.080/1990 e “permite a participação direta ou indireta, inclusive controle, de empresas ou de capital estrangeiro na assistência à saúde”. Assim, empresas como United Health, Bain Capital, Grupo Sanitas Internacional, dentre outras, já se posicionaram como importantes players no mercado brasileiro. A United Health, por exemplo, inaugurou recentemente o Américas Medical City. Ele é um grande complexo médico (com dois hospitais, um centro de treinamento e mais de 72 mil metros quadrados) que será́ de grande importância na infraestrutura de atendimento médico nos Jogos Olímpicos de 2016.

Apesar do tamanho e das oportunidades, o modelo brasileiro de saúde privada apresenta e sintomas de uma enfermidade grave com repercussões econômico-financeiras preocupantes. O índice de Variação do Custo Medico Hospitalar (VCMH, também conhecido como “in ação médica”), apurado pelo Instituto de Saúde Suplementar (IESS), aponta um descolamento em relação à in ação geral. Os custos médios de internações pagas por planos de saúde individuais cresceram 53,7% entre 2008 e 2012. No mesmo período, a in ação acumulada pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) foi de 24,3%. Em relatório publicado em 2015 foi apontado:

“A variação dos custos médico‐hospitalares foi de 17,1% para o período de 12 meses encerrado em junho de 2015, mantendo‐se superior à variação da in ação geral (IPCA) que foi de 8,9%, para o mesmo período. Durante todo o trimestre de abril a junho de 2015, o índice apresenta crescimento. No primeiro semestre de 2015 o aumento da VCMH foi de 1,8 ponto percentual: de 15,3% em janeiro de 2015 para 17,1% em junho de 2015”.

Dentre as causas possíveis para este fenômeno destacam‐se basicamente o desperdício e a incorporação de novas tecnologias (novos medicamentos, exames complementares mais modernos, procedimentos de alta complexidade e de maior custo). De acordo com relatório da Abramge, as fontes de desperdício se distribuem percentualmente da seguinte forma:

  • burocracia administrativa 27,2%,
  • tratamento excessivo 21,1%,
  • fraudes e abusos 19,4%,
  • sobrepreço 14,4%,
  • falhas no atendimento 14,1%,
  • falta de coordenação do atendimento 3,8%.

Com o intuito de remodelar o mercado, mitigar riscos e evitar desperdícios, algumas iniciativas já foram implementadas por operadoras de saúde. A criação de produtos nos quais o médico de família é um gatekeeper, e os cuidados em saúde têm abordagem integral, com atuação nas premissas da atenção primaria e medicina preventiva, já é uma estratégia crescente nas empresas do setor. Nessa nova dinâmica, espera‐se redução no desperdício, nos tratamentos excessivos, nas falhas em atendimento e na falta de coordenação do atendimento.

Outra grande aposta está nas soluções avançadas em tecnologia da informação. A MDS Brasil já desenvolveu novas ferramentas que reduzem os altos custos com burocracia administrativa, fraudes e também podem ser fortes aliados na medicina preventiva. O MDS Health Report, um sistema de Business Intelligence com a capacidade de execução de algoritmos e cruzamento de dados de diversas bases de informações em saúde podem oferecer um cenário favorável de levantamento de riscos, com dados epidemiológicos e implementação de protocolos baseados em evidencias de estudos científicos de relevância.

A medicina do trabalho, também conhecida como saúde ocupacional, há muitos anos cumpre um papel meramente burocrático, muitas vezes até semelhante à atividade cartorial, alheia à gestão do beneficio saúde dos empregados. Cada vez mais, é um grande instrumento de promoção de saúde e prevenção de doenças a favor da redução de custos dos planos de saúde empresariais. Atualmente, mais de 70% dos usuários estão vinculados a carteiras empresariais e, por força da legislação brasileira, os funcionários das empresas brasileiras devem passar por um exame clínico com o médico do trabalho com a periodicidade mínima bianual.

Assim, a MDS Brasil identificou uma grande oportunidade de realizar um levantamento dos dados clínicos populacionais com os registros dos exames clínicos preventivos dos trabalhadores. Desta forma, é possível mapear condições clinicas e fatores de risco antes que haja um desfecho catastrófico em âmbito hospitalar. Diante de toda a complexidade do mercado de saúde brasileiro, há oportunidade neste novo ciclo de transformações não só com a evolução do modelo de negócio pelas empresas do setor (consultorias de risco, seguradoras, hospitais e prestadores de serviço, indústria farmacêutica etc.), mas também pela evolução da agenda regulatória e das estratégias de redução de custos. •

 

Mais de 70% dos usuários estão vinculados a carteiras empresariais e, por força da legislação brasileira, os funcionários das empresas brasileiras devem passar por um exame clínico com o médico do trabalho com a periodicidade mínima bianual.

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GUSTAVO QUINTÃO

→ Gustavo Quintão é Diretor de Benefícios da MDS Brasil.

→ É licenciado em Medicina pela Universidade Federal de Minas Gerais. Fez o internato no Cook County Hospital em Chicago, nos Estados Unidos, especializando‐se em saúde corporativa durante o programa de Residência Médica credenciada pelo MEC em Medicina do Trabalho do Hospital Odilon Behrens em Belo Horizonte. Frequenta o MBA Executivo pelo IESE Business School – University of Navarra.

→ Já participou em vários projetos de consultoria em gestão de saúde para operadoras e empresas de diferentes setores.

→ Tem experiência de liderança em empresas multinacionais como a Telefônica, onde foi responsável da área de Saúde e Segurança do Trabalho e no grupo Sanitas Internacional, onde exerceu funções de Diretor Medico.