FOSUN – CRESCIMENTO EM ALTA VELOCIDADE NO MERCADO SEGURADOR

FOSUN – CRESCIMENTO EM ALTA VELOCIDADE NO MERCADO SEGURADOR

FOSUN – CRESCIMENTO EM ALTA VELOCIDADE NO MERCADO SEGURADOR

Edifício da Fosun em Xangai.
Edifício da Fosun em Xangai.

Crescimento em alta velocidade no mercado segurador

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A Fosun, o maior conglomerado privado da China, tornou-se, no ano passado, um grupo segurador verdadeiramente global. Reforçou a participação que tinha no maior grupo segurador de Portugal, incluindo uma participação de quase 90% na companhia Fidelidade, e comprou a companhia de seguros norte-americana Meadowbrook Insurance Group (MIG) e a Ironshore, a companhia de seguros com sede nas Bermudas dedicada a seguros especializados, que vêm se juntar às companhias de seguro e resseguro que o grupo detém na Ásia.

As operações na área dos seguros integram-se, assim, num conjunto de empresas em franco crescimento que a Fosun detém em outras áreas, tais como a industrial, a de lifestyle e a da saúde, numa altura em que o presidente do grupo, Guo Guanchang, tem como alvo tornar-se “o Warren Buffett chinês”, afirmando que o grupo se encontra na “superautoestrada” do crescimento. Adrian Ladbury lança um olhar mais atento à estratégia global para os seguros, além de refletir também sobre o recente crescimento do grupo.

O grupo Fosun foi fundado em 1992 por cinco licenciados da Universidade de Fudan, na China. Originalmente uma empresa de pesquisa de mercado, transformou-se, nos últimos 24 anos, no maior conglomerado privado da China.

Guo Guanchang, presidente do conselho de administração e principal acionista do grupo, baseia claramente a sua estratégia na que foi levada a cabo com tanto êxito pelo lendário investidor norte-americano Warren Buffett.

Em termos muito simples, Buffett usa o fluxo gerado pelas companhias de seguros, que não tem de ser devolvido imediatamente aos titulares das apólices para investir numa grande variedade de outras empresas de setores não relacionados.

Estas empresas beneficiam obviamente de termos e condições de cobertura preferenciais por parte das companhias de seguros do grupo, uma vez que estas conhecem respetivo perfil de riscos daquelas empresas melhor do que qualquer concorrente.

Ao mesmo tempo, os prêmios gerados alimentam o fluxo criando um círculo virtuoso. O grupo investe também de forma significativa e detém atividades de gestão de ativos que beneficiam tanto as operações industriais quanto as companhias de seguros.

É necessário um capital significativo para que este sistema funcione, uma vez que as companhias de seguros têm de diversificar a sua atividade através de vários segmentos e territórios para evitar cúmulos de risco indesejáveis; daí a recente expansão internacional.

Além dos fundamentos da estratégia empresarial de Buffett, Guo Guanchang segue também o exemplo do investidor norte-americano, escrevendo uma longa e reveladora carta aos acionistas quando apresenta os resultados anuais do grupo.

Na última carta, publicada no mês passado por ocasião da divulgação dos resultados do ano de 2015, Guo Guanchang explicava assim a estratégia: “O grupo considerou a atividade seguradora como uma boa forma de combinar a capacidade de investimento da Fosun com capital a longo prazo de alta qualidade. Por um lado, as companhias de seguros podem aumentar os resultados da subscrição alavancando-se na grande experiência e no conhecimento especializado das operações no setor segurador e financeiro, e, por outro, poderão também ajudar o grupo a obter maiores receitas de investimento por meio de práticas de investimento e cases. Assim, seguros e investimentos serão as nossas atividades de base no futuro”, explicou.

Tal como a Berkshire Hathaway de Buffett, a Fosun está a sair-se muito bem neste mercado segurador global altamente competitivo.

Guo Guanchang revelou que, à data de 31 de dezembro de 2015, o total de ativos de seguros geridos era de 180,6 mil milhões de yuans (27,9 mil milhões de dólares). Este valor representava 44,6% do total de ativos do grupo e significou um aumento em relação aos 32,9% registados no fim de 2014.

O total de ativos de investimento foi de 160,4 mil milhões de yuans (24,8 mil milhões de dólares), um aumento de 50,2% em comparação com 2014. O lucro anual da atividade seguradora atribuível aos proprietários da empresa-mãe subiu 88,4%, tendo atingido os 2,1 bilhões de yuans (320 milhões de dólares) e representou 26,2% do resultado líquido do grupo. De 2013 a 2015, o lucro aumentou a uma taxa de crescimento anual composta de 100,5%, divulgou Guo Guanchang.

Mas como a Fosun conseguiu construir uma presença tão forte no negócio segurador?

Primeiro passo com a Yong’an

A Yong’an P&C Insurance foi fundada em 2003, tem sede em Xi’an e constituiu o primeiro investimento da Fosun no mercado segurador.

O grupo detém uma participação de 19,93% no capital da Yong’an, uma companhia de seguros chinesa que subscreve todo o tipo de seguros do ramo Não Vida e que estava classificada no 11.º lugar do mercado de seguros patrimoniais e de responsabilidades (P&C), em 2014.

Atualmente, o mercado chinês é altamente competitivo e não é fácil obter lucros.

É difícil encontrar informação financeira sobre a Yong’an, mas, na carta que acompanhava a divulgação dos resultados do grupo em 2015, Guo Guanchang afirmava que esta companhia de seguros “tomou a iniciativa de adaptar e transformar” a sua atividade e que continuará a fazê-lo em 2016, indicando que passou por momentos difíceis tal como o resto do mercado chinês.

O grupo declarou que a Yong’an abandonou certos negócios “menos eficientes” e “otimizou constantemente” o seu portfólio de negócios. Além disso, aumentou a capacidade de produção per capita, reduziu os custos de regularização de sinistros, reforçou o desenvolvimento e a inovação e explorou ativamente as aplicações para a internet.

Não obstante a necessidade de “adaptação”, a Yong’an registrou uma receita bruta de prêmios de 8,1 bilhões de yuans, um resultado líquido de 833,3 milhões de yuans, ativos de investimento no valor de 10,9 bilhões de yuans, um rácio combinado líquido de 98% e um rácio de solvência de 263,7%. O retorno sobre o investimento total foi de 10%.

Os resultados mostram, assim, que a Yong’an não está se saindo nada mal.

Segundo passo: Pramerica

O grande passo seguinte da Fosun no mercado segurador foi dado em setembro de 2012, altura em que anunciou uma joint venture com o gigante norte-americano de serviços financeiros Prudential Financial.

A empresa, designada Pramerica Fosun Life Insurance Company Limited (PFI), é uma joint venture que começou com um capital social de 500 milhões de yuans.

Trata-se da primeira empresa do ramo Vida fundada em conjunto por um investidor privado chinês e um investidor estrangeiro.

Guo Guanchang afirmou na ocasião: “O setor dos seguros de vida na China está a crescer rapidamente, movido por um enfoque crescente na proteção dos meios de subsistência das famílias do país inteiro. Esperamos tirar benefício da profunda experiência atuarial, do conhecimento no que respeita à gestão de ativos e da história de 137 anos de sucesso da PFI no setor dos seguros de vida, num momento em que avançamos juntos no desenvolvimento de produtos que respondem às necessidades de seguro de vida deste mercado”.

No mais recente relatório financeiro, o de 2015, a Fosun afirmava que, nos últimos anos, os prêmios recebidos pela PFI aumentaram de forma rápida na sequência de vários projetos inovadores.

Guo Guanchang afirmou que a empresa promove continuamente a inovação nos seus produtos e está também a explorar um novo modelo de vendas de “Seguro + Gestão de Saúde + Comunidade de reformados + Alocação de Ativos no Estrangeiro” e seguro para ações de crowdfunding.

O grupo oferece um amplo pacote de seguros que vai desde o seguro de vida, ao de acidentes e doenças graves, passando pelo seguro de vida misto (“Universal Life”) e pelo seguro de saúde.

Em 2015, a receita de novos prêmios anuais e o total de prêmios da PFI foi de 125,3 milhões e de 978,1 milhões de yuans respectivamente (incluindo, em ambos os casos, os depósitos dos titulares de apólices de seguro de vida misto “Universal Life”).

A empresa registrou também uma receita bruta de prêmios de 57,2 milhões de yuans, um prejuízo líquido de 113 milhões de yuans, ativos de investimento no valor de 1,9 bilhões de yuans, um rácio de solvência de 985,5% e um retorno sobre o investimento total de 6,9%.

O caminho para o topo

Em janeiro de 2013, a Fosun criou a Peak Reinsurance Company Limited (Peak Re), um ressegurador sediado em Hong Kong e concebido para absorver a procura crescente por soluções de resseguro “state of the art” na região da Ásia-Pacífico. A empresa começou com um capital inicial de 550 milhões de dólares.

A Peak Re é, na verdade, detida conjuntamente com a International Finance Corporation (IFC), uma organização membro do grupo Banco Mundial centrada no desenvolvimento do setor privado. A IFC investiu 82 milhões de dólares em 14,9% da empresa.

No momento do lançamento, Guo Guanchang afirmou: “Acreditamos que o investimento na Peak Re permitirá, juntamente com os outros projetos da Fosun na área dos seguros, um fluxo de receitas estável decorrente da atividade seguradora que sustentará as nossas atividades de investimento, criando as condições para fazer da Fosun um ‘grupo de investimento de referência’”.

O grupo salientou que faz bastante tempo que a região da Ásia-Pacífico se caracteriza por uma situação de infrasseguro, destacando que, na sequência de uma série de catástrofes naturais na região em 2011, incluindo as inundações na Tailândia, o sismo e tsunami de Tohoku no Japão, o sismo na Nova Zelândia e as inundações na Austrália, menos de 22% do total de prejuízos econômicos registrados estavam segurados.

Este valor era consideravelmente inferior ao rácio de perdas econômicas seguras nos Estados Unidos e na Europa naquela data, o qual se situava em cerca de 64% e 50%, respectivamente.

Além disso, em 2010, a China sofreu as mais devastadoras inundações em dez anos, que provocaram cerca de 50 bilhões de dólares de prejuízos econômicos, dos quais apenas bilhões estavam cobertos por seguro.

Assim, a Peak Re criou planos para investir “signicativamente” na investigação e no desenvolvimento de soluções de gestão de risco para famílias e empresas da região. Segundo os responsáveis, nos seus primeiros cinco anos de existência, a Peak Re planejava entrar, juntamente com a IFC e a Fosun, nos mercados asiáticos emergentes como o chinês, o indiano e o indonésio.

O novo ressegurador afirmou também que planejava crescer orgânica e estrategicamente através da aquisição de carteiras de seguros rentáveis.

No ano passado, a Peak Re deu passos importantes no sentido de diversificar a sua atividade quer em termos geográficos quer no que se refere aos produtos disponibilizados.

A empresa anunciou um plano para adquirir uma participação de 50% no grupo de seguros caribenho NAGICO Holdings Limited, em julho de 2015. Esta aquisição está atualmente dependente da aprovação do regulador.

A Peak Re abriu também escritórios em Zurique em setembro de 2015, de forma a ficar mais próxima dos seus clientes na Europa e a diversificar ainda mais a sua carteira de negócios.

A Fosun revelou que a atividade do ressegurador na região da Ásia-Pacífico se expandiu gradualmente, acrescentando que fez também progressos significativos na Europa e na América do Norte.

Em 2015, o valor bruto de prêmios subscritos na Europa e na América do Norte representava 41,5% do total de receitas de prêmios, o que significou um aumento de 24,4% relativamente aos 17,1% de 2014.

No final do ano passado, a Peak Re contava com mais de 285 clientes em 47 mercados do mundo inteiro, em comparação com os 175 clientes registados no final de 2014.

A empresa vendeu 582,7 milhões de dólares em prêmios de seguros em 2015 em comparação com os 288,1 milhões de dólares registados no período homólogo de 2014. O resultado líquido foi de 59,2 milhões de dólares, uma subida de 17,6 milhões relativamente a 2014.

O rácio combinado líquido foi de 96,8%, o rácio de solvência de 754%, os ativos de investimento representaram 913 milhões de dólares e o retorno sobre o investimento foi de 6,4%.

Fosun chega à Europa… via Portugal

O maior passo em frente na história de crescimento da Fosun na área dos seguros foi dado em maio de 2014, altura em que o Presidente da China, Xi Jinping; e o Presidente da República Portuguesa, Aníbal Cavaco Silva; testemunharam a assinatura dos documentos que asseguraram a conclusão da aquisição por parte da Fosun de 80% do capital e dos direitos de voto nas companhias Fidelidade, Multicare e Cares, hoje conhecidas coletivamente como grupo Segurador Português, por 1,038 bilhões de euros.

As três empresas eram subsidiárias detidas na totalidade pela Caixa Seguros e Saúde (CSS), o ramo de seguros do banco estatal CGD.

Os responsáveis da Fosun afirmaram, depois de concluída a aquisição, que a empresa tinha dado um “passo de gigante” no sentido de se tornar um grupo de investimento de primeiro plano movido por dois motores individuais: “capacidade financeira abrangente baseada na atividade seguradora” e “capacidade de investimento sustentada numa profunda consolidação industrial”.

Este passo, disseram os responsáveis do grupo, aproximou o grupo da implantação do “modelo de desenvolvimento de Warren Buffett”.

O total de ativos não auditados do grupo Segurador Português era de 12,8 mil milhões de euros no fim de 2013. Numa base pró-forma, depois da consolidação do grupo Segurador Português, a proporção de ativos de seguros da Fosun relativamente ao total de ativos do grupo aumentou significativamente de 3% para 39%.

“Sendo a atividade seguradora a atividade central para o desenvolvimento da Fosun, a cooperação entre a Fosun e o grupo Segurador Português irá indubitavelmente ser duradoura e estável. A Fosun tem confiança total na equipe de gestão atual e tem o compromisso de manter a estabilidade da estratégia empresarial em curso. Através do trabalho de ambas as partes e das sinergias alcançadas com os recursos partilhados em vários aspectos, a Fosun espera desenvolver produtos e serviços de maior qualidade como parte dos seus esforços para alcançar um retorno sustentável para os acionistas, funcionários e clientes”, declarou a Fosun.

O grupo chinês afirmou ainda que iria facilitar a colaboração e a sinergia com outras companhias de seguros em que investira, seguindo mais uma vez o modelo de Buffett.

“Por exemplo, irá facilitar a colaboração com a Peak Reinsurance, de forma a baixar os custos de resseguro, e cooperará com a Yong’an P&C Insurance na área das tecnologias, dos produtos e dos canais de vendas, de modo a conseguir um desenvolvimento rápido da atividade. Por outro lado, a Fosun fará uso da capacidade de investimento de base para otimizar o portfólio de investimento e, assim, aumentar os retornos sobre o investimento do grupo Segurador Português, especialmente através da combinação com as estratégias de investimento global da Fosun. A Fosun irá também fazer uma análise completa das oportunidades de investimento na Europa e nos mercados da OCDE e alargará o âmbito da atividade, minimizando os riscos sistêmicos da concentração geográfica através da diversificação”, explicou a Fosun.

O grupo chinês acrescentou que tem vindo a identificar ativamente diferentes tipos de “oportunidades de investimento de valor” no mundo inteiro e chegou à conclusão de que, apesar dos recentes problemas econômicos de Portugal, o país continua a ser um mercado-chave apelativo e que se enquadra perfeitamente na estratégia de expansão global da Fosun.

“A Fosun mantém-se atenta a outras oportunidades de investimento em outros setores do mercado português, em especial do imobiliário, do turismo e dos produtos de marca”, acrescentou a Fosun.

A Fosun abriu um escritório que representa a empresa em Lisboa, cidade a partir da qual poderá dar maior apoio ao grupo Segurador Português, explorar investimentos em outros setores em Portugal e reforçar o intercâmbio e a cooperação sino-portuguesa, afirmou o grupo.

“Este passo permitirá também à Fosun dar uma contribuição, ainda que diminuta, para a recuperação da economia portuguesa. A Fosun pretende fazer a ponte no sentido de facilitar o desenvolvimento de negócios na China por parte de empresas portuguesas e o desenvolvi- mento de atividades em Portugal por empresas originárias da China”, acrescentou o grupo.

No início de 2015, a Fosun reforçou a participação no capital da Fidelidade, tendo chegado aos 84,986%.

A Fosun Insurance Portugal é, presentemente, um operador global significativo no mercado segurador português.

A Fosun indicou, no mais recente relatório de resultados anuais, que vende produtos em todos os principais segmentos de negócio e que conta com a maior e mais diversificada rede de vendas de seguros de Portugal.

Esta rede inclui agentes exclusivos e multimarca, corretores, dependências próprias, canais na internet e no telefone. Conta também com fortes parcerias de distribuição com os CTT e a Caixa Geral de Depósitos, um dos principais bancos portugueses.

A Fosun Insurance Portugal está também ativa em sete países de três continentes (Europa, Ásia e África).

Durante o ano a que dizem respeito os resultados, a Fosun Insurance Portugal apresentou uma receita bruta de prêmios de 3,9 mil milhões de euros, um rácio combinado líquido na atividade do ramo Não Vida de 98,4%, um rácio de solvência de 215,7% e um resultado líquido de 301,1 milhões de euros.

“A atividade internacional da Fosun Insurance Portugal continua a revelar um elevado desempenho comercial, tendo atingido um total de 202,1 milhões de euros em prêmios diretos de seguro, um aumento de 13,7% relativamente a 2014”, informou a Fosun no fim de março do ano corrente.

Próxima parada: Estados Unidos!

Apesar da importância da aquisição em Portugal, o “Warren Buffett chinês” não abrandou o ritmo sendo o alvo seguinte o gigantesco mercado de seguros dos Estados Unidos.

Em julho do ano passado, a Fosun anunciou a conclusão da aquisição de 100% do Meadowbrook Insurance Group (MIG) por 439 milhões de dólares.

“A Meadowbrook irá reforçar a capacidade da Fosun para aceder a capital de alta qualidade a longo prazo, bem como melhorar as capacidades do grupo na área da atividade seguradora quer no que respeita às responsabilidades quer aos investimentos. Estamos empenhados em alavancar os recursos globais da Fosun de forma a promover o desenvolvimento estável da Meadowbrook a longo prazo”, afirmou Guo Guanchang.

A Meadowbrook é uma companhia de seguros patrimoniais e de responsabilidades, e uma empresa de serviços de gestão de seguros que se centra em mercados especializados de nicho.

Comercializa e subscreve programas de seguros de patrimoniais e de responsabilidades e produtos de seguro numa base “admitted” e “non-admitted” através de uma rede diversificada de mediadores de seguros independentes, empresas de seguros, administradores de programas e agências generalistas.

É importante notar que a Meadowbrook dispõe de uma gama completa de licenças de seguro do ramo Não Vida em 50 estados do país, que cobrem segmentos de produtos autorizados e não autorizados.

A conclusão da aquisição da Meadowbrook deu à Fosun uma plataforma estratégica de seguros nos EUA, permitindo ao grupo estabelecer uma presença significativa no maior mercado de seguros de patrimoniais e responsabilidades do mundo.

No ano passado, o MIG registrou uma receita bruta de prêmios de 726,5 milhões de dólares e um resultado líquido de 34,3 milhões de dólares, sendo o rácio combinado líquido de 100,3% e um rácio de solvência de 200,3%. O MIG detém ativos de investimento no valor de 1,57 bilhões de dólares.

E agora, o mercado especializado internacional

Em fevereiro do ano passado, numa altura em que preparava a aquisição do MIG, a Fosun concluiu a aquisição de aproximadamente 20% das ações ordinárias em circulação da Ironshore, o grupo de seguros especializado com sede nas Bermudas.

O preço de compra foi de aproximadamente 466,6 milhões de dólares.

Como seria de esperar, em novembro do ano passado, o grupo chinês concluiu a aquisição do capital restante da Ironshore por dois bilhões de dólares em dinheiro.

A Ironshore é um grande passo em frente para a Fosun no importante, e hoje muito procurado, mercado de seguros “corporate” de grandes empresas. Além das Bermudas, a Ironshore tem operações nos EUA, no Lloyd’s e na Irlanda.

Em 2015, a receita bruta de prêmios da Ironshore atingiu os 2,16 mil milhões de dólares, tendo o resultado líquido sido de 57,8 milhões de dólares sustentado por um rácio combinado líquido de 96,7%. O rácio de solvência foi de aproximadamente 166% e o total de ativos de investimento de 5,1 bilhões de dólares.

Dada a presença atual do grupo nos mercados primários do ramo Vida e Não Vida na China, cujo potencial é enorme, no mercado asiático e internacional de resseguros, no mercado continental europeu de seguros Vida e Não Vida e nos mercados comerciais especializados dos Estados Unidos, a aquisição da Ironshore deu à Fosun aquela que será possivelmente a última peça do puzzle, pelo menos por agora.

Na época da divulgação do negócio, Guo Guanchang salientou as sinergias estilo Buffett de que as empresas irão usufruir na família Fosun, afirmando: “Agora e no próximo ano, a Fosun irá reforçar os esforços de integração e colaboração, procurando construir um grupo segurador e financeiro inter-regional e intersetorial. Incentivamos as empresas em que investimos a colaborar sempre que possível e procuramos ligá-las aos recursos da Fosun através das nossas plataformas seguradoras e financeiras de forma a melhorar a competitividade de cada empresa nos respectivos setores”.

E a Ironshore não demorou a tirar partido do potencial do novo grupo, já que em janeiro anunciou que a sua subsidiária no Lloyd’s, a Pembroke Managing Agency, iria abrir um escritório em Xangai para integrar a plataforma do Lloyd’s na China.

A Pembroke Managing Agency de Xangai irá subscrever segmentos especializados de seguros, focando-se inicialmente nos setores da agricultura, do mar e da saúde.

Tracy Ma foi nomeada responsável pela subscrição nesta entidade, reportando a Hui Yun Boo, diretor executivo da Ironshore para a região da Ásia-Pacífico.

“A empresa-mãe da Ironshore, a Fosun, que tem sede em Xangai, coloca-nos numa posição diferenciada no mercado local, permitindo-nos oferecer produtos especializados no país para ir ao encontro da crescente procura que se verifica nesta cidade vibrante”, afirmou Mark Wheeler, CEO da Ironshore International.

Hui Yun Boo afirmou que o novo escritório de Xangai complementa a presença atual da Ironshore nos centros de crescimento da região da Ásia-Pacífico, como Singapura, Hong Kong, Tóquio, Sidney e Auckland.

É interessante notar que apenas dois meses depois, no dia 22 de março, o conselho de administração da Fosun anunciou que a empresa estava a considerar fazer uma oferta pública inicial (OPI) das ações ordinárias da Ironshore.

“À data da presente comunicação, não foi ainda tomada a decisão final pelo conselho de administração da Empresa nem da Ironshore sobre a possibilidade, o momento ou o local de uma OPI”, declarou o grupo.

Seja qual for a decisão da Fosun em relação à Ironshore, é claro que o grupo chinês continuará a construir a atividade no espaço internacional dos seguros. Como afirma Lan Kang na entrevista nas páginas seguintes, a Fosun irá manter-se focada neste mercado e usará as bases portuguesa e internacional para procurar novas oportunidades de crescimento. Ficaremos atentos aos novos desenvolvimentos! •

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GUO GUANGCHANG ENCONTRA-SE COM O SEU MODELO DE REFERÊNCIA EM MESA-REDONDA DE CEOs NORTE-AMERICANOS E CHINESES

Em setembro passado, o presidente chinês Xi Jinping marcou presença na mesa-redonda de CEOs norte-americanos e chineses em Seattle organizada pelo Paulson Institute e pelo China Center for the Promotion of International Trade. Este foi o ponto alto do segundo dia da visita do presidente chinês aos Estados Unidos.

Nesta mesa-redonda, Xi Jinping salientou que, devido às diferenças nas etapas de desenvolvimento, as economias da China e dos Estados Unidos são altamente complementares. O presidente chinês afirmou que há mais espaço e mais oportunidades para cooperação econômica e comercial bilateral. Xi Jinping acrescentou que a China apoia grandes empresas norte-americanas que estabelecem sedes regionais e centros de investigação na China, e instou mais pequenas e médias empresas dos EUA a expandirem a atividade na China. Por sua vez, os investimentos chineses nos Estados Unidos irão também continuar a crescer, afirmou.

Participaram na discussão 15 CEOs das maiores empresas da China, incluindo Guo Guangchang da Fosun; e 15 CEOs das maiores corporações dos EUA, incluindo Warren Buffett da Berkshire Hathaway.

Em jeito de brincadeira, Guo Guangchang afirmou ser um estudante de Buffett, na mesa-redonda em que apresentou os projetos de investimento da Fosun nos EUA, incluindo as recentemente adquiridas Meadowbrook Insurance Group (MIG), e Ironshore e a participação em programas sino-americanos de cooperação e intercâmbio cultural e artístico.

Durante a mesa-redonda, Guo Guangchang afirmou que os Estados Unidos têm a maior concentração de recursos qualificados e que, dado o enfoque da Fosun em quatro grandes áreas – seguros, banca privada, saúde, bem-estar e “lifestyle” –, o grupo explora ativamente os melhores projetos de cooperação.

Àquela data, o volume de investimentos da Fosun nos Estados Unidos já tinha ultrapassado os cinco bilhões de dólares, tendo criado um total de 4.895 oportunidades de emprego, afirmou Guo Guangchang. Além da Ironshore e do MIG, entre estes investimentos contam-se: o estabelecimento de três laboratórios farmacêuticos em Silicon Valley para a investigação e desenvolvimento global 24/7, bem como mais de dez projetos de investimentos em cooperação, tais como o edifício 28 Liberty, uma referência em Nova Iorque; a St John, reputada marca norte-americana de vestuário feminino; o Studio 8, empresa inovadora de cinema de Hollywood; e um conjunto de projetos de capital de risco.

Durante a mesa-redonda, Buffett e o “Buffett chinês” tiveram a oportunidade de se encontrar pessoalmente e chegaram a um consenso: o de continuar a ser otimistas em relação à economia chinesa e o de continuar a aderir à disciplina de investimento em valor.

 

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ENTREVISTA A LAN KANG

A visão estratégica de um grupo verdadeiramente global

O grupo Fosun, um conglomerado de empresas chinês, irrompeu no mercado de seguros europeu e internacional em 2014 quando adquiriu a Fidelidade, segurador líder em Portugal. Esta aquisição foi rapidamente seguida por grandes investimentos nas companhias de seguros de especialidade internacionais: a Ironshore, sediada nas Bermudas; e a Meadowbrook, dos Estados Unidos. Estes investimentos internacionais vêm juntar-se à carteira de investimentos em seguradores chineses da Fosun.

A FULLCOVER entrevistou Lan Kang, vice-presidente do grupo Fosun e presidente do Fosun Insurance Group, para saber mais sobre os planos do grupo para o mercado de seguros português e internacional, e como se enquadra esta aquisição na estratégia mais ampla de rápido crescimento do grupo.

 

Lan Kang, Vice Presidente do grupo Fosun e Presidente do Fosun Insurance Group.
Lan Kang, Vice Presidente do grupo Fosun e Presidente do Fosun Insurance Group.

A Fosun foi fundada em 1992. Pode partilhar conosco como se tornou a empresa num dos maiores conglomerados chineses num período tão curto?

O rápido crescimento da Fosun nas últimas duas décadas tem vindo a ser construído em grande parte com base no tremendo crescimento da economia chinesa, bem como nas decisões estratégicas que a empresa tem vindo a tomar ao longo do tempo, igualmente importantes para o seu sucesso. Tendo criado a empresa em 1992, pouco depois de se terem licenciado, os fundadores do grupo Fosun começaram a atividade na área da pesquisa de mercado e dos serviços de consultoria com pouco capital investido. Conseguiram acumular algum capital e depois de verificarem que a China se encontrava num período de rápida urbanização, entraram na área do imobiliário e também da saúde. Além disso, o investimento na indústria transformadora e nos recursos revelou-se muito bem-sucedido, graças ao rápido desenvolvimento do setor de infraestruturas na China.

A partir de 2008, à medida que o motor econômico da China se transferia da industrialização e urbanização para o consumo e finanças pessoais, a Fosun continuou a investir “combinando a dinâmica de crescimento da China com os recursos globais”.

Quais são os objetivos do seu investimento e da sua estratégia?

No que diz respeito às oportunidades de investimento, aquilo que é mais importante considerar é a forma como podemos criar valor através dos nossos investimentos.

Hoje em dia, num momento em que o capital está se tornando em numa “commodity”, temos de pensar na razão por que outras empresas escolherão o nosso investimento em vez de outros e na forma como poderemos acrescentar valor ao capital que providenciamos.

Focamo-nos em três áreas de investimento: saúde, bem-estar e riqueza pessoal. Já construímos as nossas vantagens competitivas no setor da saúde e do bem-estar. Por exemplo, a Fosun Pharma é uma das principais empresas farmacêuticas da China. Adquirimos o United Family Healthcare, o hospital mais sofisticado da China. Além disso, investimos em alguns projetos de “Internet + serviços de saúde”, como o Guahao.com. No ano passado, concluímos a privatização do Club Med, o grupo francês de complexos turísticos, cujo potencial para expansão global acreditamos ser elevado. O nosso investimento no setor dos serviços financeiros, em especial no setor dos seguros, também permite uma preservação da riqueza a longo prazo para os nossos clientes.

Quais são os critérios de seleção para seus projetos de investimento?

No que respeita aos projetos de seguro, temos dez diretrizes para o investimento, nomeadamente:

  1. liderança de mercado no segmento;
  2. equipe de gestão de grande qualidade;
  3. uma boa combinação de volume de ativos e capacidade operacional;
  4. custo do passivo relativamente baixo;
  5. uma avaliação razoável;
  6. gestão do risco prudente;
  7. oportunidade de mercado;
  8. aquisição de posição de controle acionista;
  9. potencial de melhoria no que diz respeito aos ativos;
  10. sinergias com o grupo Fosun e as empresas do seu portfólio. Para nós, cada projeto é único. Avaliamos sempre cada projeto de forma abrangente e rigorosa tendo em conta, embora não exclusivamente as diretrizes acima referidas.

Quais são os grandes desafios que a Fosun enfrenta nos investimentos que faz no exterior, por exemplo, na Fidelidade, Ironshore e Meadowbrook?

Para este tipo de investimentos no estrangeiro, é necessário um conhecimento profundo da realidade local e a capacidade de aceder às melhores oportunidades de investimento. Este é um fator crucial, uma vez que existe uma concorrência crescente que leva à subida dos preços. É também necessário confiar nos reguladores estrangeiros e compreendê-los, sendo a complexidade da gestão do risco cada vez maior.

Quais são os princípios orientadores quando estão lidando com as empresas do seu portfólio?

É preciso selecionar e/ou construir uma equipe de liderança com forte empreendedorismo e capacidade de estabelecimento de parcerias. Temos de fornecer os recursos que são necessários e criar sinergias entre todas as empresas do nosso portfólio. Temos também de construir uma corporate governance e sistemas de gestão do risco fortes e, claro, atrair e desenvolver talentos locais e proporcionar-lhes uma plataforma global através da qual possam crescer.

Porque escolheu a Fosun o mercado de seguros como um dos mercados-chave? De que forma este mercado se enquadra nas restantes atividades do grupo?

O setor segurador é o melhor canal para combinar o conhecimento único da Fosun em investimentos, e na indústria com capital estável e a longo prazo.

Por um lado, dadas as elevadas capacidades da Fosun no âmbito da gestão dos setores da saúde, do bem-estar, do imobiliário e da riqueza, o grupo pode ajudar as companhias de seguros a explorar sinergias no desenvolvimento e na otimização da distribuição de produtos, com uma plataforma financeira integrada e em várias outras áreas.

Por outro lado, podemos ajudar a melhorar a gestão dos ativos e passivos e do portfólio de investimento da companhia de seguros alavancando-a com as excelentes capacidades de investimento da Fosun.

Além disso, no que diz respeito às companhias de seguros estrangeiras, a Fosun pode acrescentar valor combinando a dinâmica chinesa com os recursos globais.

A Fosun está empenhada em ajudar as companhias de seguros do seu portfólio a melhorar os resultados da subscrição através de um enfoque na excelência operacional, a reforçar os balanços e a aumentar a competitividade no mercado por meio da evolução e da inovação.

Desta forma, apenas quando a parte operacional dos seguros é sólida e rentável é que é possível utilizar o fluxo de longo prazo para alcançar melhores retornos sobre o investimento.

Porque entrou a empresa no mercado segurador, que é tão competitivo, e cujos preços estão em baixa acentuada, especialmente no segmento Não Vida de empresas?

É verdade que os mercados globais de seguros, especialmente os mercados desenvolvidos, estão a enfrentar uma competição feroz e excedentes de capitais alternativos. No entanto, a distância entre as grandes empresas e as empresas medíocres é enorme. O nosso trabalho consiste em identificar oportunidades de investimento de valor, não obstante as condições de mercado difíceis, e criar valor depois do investimento.

Por exemplo, os seguros especializados superaram os outros segmentos de negócio nos Estados Unidos nos últimos anos. A Ironshore, um player com forte presença nesse segmento, parece-nos uma oportunidade interessante e única para o grupo.

Acreditamos que bases sólidas, conhecimento e experiência de subscrição e uma equipe de gestão talentosa são cruciais para o sucesso de uma companhia de seguros. Pode-se dizer com algum orgulho que todas as companhias de seguros estrangeiras do nosso portfólio foram financeiramente rentáveis em 2015.

Porque decidiu a Fosun expandir-se além da Ásia e alargar a atividade na área dos seguros? Porque não concentrar-se em mercados mais próximos?

Na verdade, não temos restrições no que respeita a áreas geográficas. Selecionamos as melhores oportunidades que se enquadrem na estratégia da Fosun. Em 2014, foi a Fidelidade em Portugal e; em 2015, investimentos na Ironshore e na Meadowbrook nos Estados Unidos. É possível que, em 2016, venha a haver uma empresa da Fosun com um desempenho acima da média na Ásia ou em outra região do mundo. Mas nós não negligenciamos o nosso mercado doméstico. As nossas companhias de seguros da China e as companhias de resseguros em Hong Kong têm sido geridas por equipes de profissionais de seguros qualificados e os resultados têm sido bons.

Pode explicar-nos a importância da Fidelidade para a estratégia da Fosun?

Sendo o nosso primeiro investimento na área dos seguros fora da Ásia, a Fidelidade abriu um novo capítulo no grupo Fosun. Olhando apenas para os números, em 2014, os ativos da Fosun tinham aumentado 13 bilhões de euros com a aquisição da Fidelidade. E todos sabemos que existe muito mais valor intrínseco além dos números.

A Fidelidade é uma plataforma estratégica na Europa que ajuda a Fosun a combinar melhor a dinâmica da China com os recursos globais, a compreender melhor as operações de seguros no contexto do regime Solvência II e a implementar melhor a nossa estratégia central “Seguro + Investimento” de forma prudente e e eficaz.

Nos últimos dois anos, a Fosun deu um forte apoio à Fidelidade para que esta aumentasse os resultados da subscrição e melhorasse o desempenho financeiro. Compreendemos perfeitamente que, para os titulares de apólices, a robustez financeira da companhia de seguros é a maior prioridade. Estamos empenhados em ajudar a Fidelidade a atingir um futuro sustentado e de ainda maior destaque.

Como procura a Fosun as melhores oportunidades para um crescimento rentável nos mercados de seguros do mundo inteiro – por geografia ou por segmento de negócio?

Mais do que geografias ou segmentos de negócio, vamos estar atentos a companhias de seguros com lideranças fortes, competitivas e com produtos e serviços inovadores, bem como excelência operacional.

A Fosun ambiciona expandir-se no espaço mais amplo das empresas multinacionais de seguros e, em caso afirmativo, quando? Irá a Ironshore ser a principal plataforma para este negócio?

A resposta mais curta à primeira pergunta é sim; mas vale a pena aprofundar. O nosso objetivo no setor segurador é construir uma holding global com capacidades de gestão de seguros e investimento de primeiro plano. Vamos continuar a procurar oportunidades globais de investimento em seguros de alta qualidade tendo como base as nossas rigorosas diretrizes de investimento e a nossa gestão prudente do risco. Nunca iremos adotar uma estratégia de crescimento que seja agressiva e irracional. •

Xangai, a cidade onde a tradição e a nova arquitetura coexistem.
Xangai, a cidade onde a tradição e a nova arquitetura coexistem.

LAN KANG

→ Lan Kang é vice-presidente e detém o pelouro de recursos humanos da Fosun, além de presidente do Fosun Insurance Group. Pertence atualmente ao conselho de administração de seis companhias de seguros em que a Fosun investiu, incluindo a Yong’na P&C Insurance e a Pramerica Fosun Life Insurance, na China; a Peak Reinsurance, em Hong Kong; o Meadowbrook Insurance Group, nos Estados Unidos; a Ironshore, nas Bermudas; e o grupo Fidelidade, em Portugal.

→ Antes de integrar o grupo Fosun, Lan Kang era senior partner responsável pelos clientes, com foco em executive search e desenvolvimento de liderança nos escritórios da Korn/Ferry International na região da Grande China. Trabalhou também quatro anos como consultora de gestão nos escritórios da McKinsey & Company na região da Grande China. Apoiou diversas multinacionais de referência e empresas locais chinesas no desenvolvimento estratégico, otimização operacional e gestão da mudança, além de ter acumulado muita experiência em recrutamento de talentos e no desenvolvimento organizacional.

→ Lan Kang viveu nove anos nos Estados Unidos, antes de voltar à China em 2002, logo após ter concluído cum laude o seu MBA na Wharton School, Universidade da Pensilvânia. Obteve também o bacharelado em Ciências, na Universidade de Zhejiang, na China; e o mestrado em Ciências, na Universidade de Tulane, nos Estados Unidos da América.

 

1.o INVESTIMENTO DA FOSUN NO SETOR SEGURADOR

Fidelidade:de vento em popa

Jorge Magalhães Correia é o presidente da comissão executiva das seguradoras Fidelidade, Multicare e Fidelidade Assistance, e do conselho de administração da seguradora Universal Seguros (Angola). É ainda vice-presidente da Associação Portuguesa de Seguradores e membro da The Geneva Association. Conversou com a FULLCOVER sobre a Fidelidade, a estratégia de crescimento e desenvolvimento, a relação com o novo acionista – a Fosun – e ainda a ligação com a MDS.

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JORGE MAGALHÃES CORREIA

→ Iniciou a vida profissional como docente da Faculdade de Direito de Lisboa. Foi dirigente da Inspeção-Geral de Finanças, da Comissão de Mercado de Valores Mobiliários e Advogado.

→ Desempenhou diversos cargos societários na área financeira e seguradora, tendo sido nomeadamente administrador e/ou presidente do conselho de administração das seguradoras Mundial-Confiança, Fidelidade Mundial, Império Bonança e Via Direta.

→ Na área hospitalar foi administrador da USP Hospitales (Barcelona) e administrador e posteriormente presidente do conselho de administração da HPP – Hospitais Privados de Portugal SGPS.

Em entrevista a um jornal afirmou uma vez: “O que se espera de nós é que façamos num ano o que fazíamos normalmente em três”. Tem conseguido acompanhar esta pressão ao nível dos resultados?

Foi uma expressão destinada a ilustrar o entusiasmo que sentimos por parte dos nossos acionistas. Toda a organização tem-se adaptado rapidamente ao novo enquadramento após a privatização, baseado em dois acionistas fortes e que se complementam. Temos aproveitado as oportunidades adicionais que esse contexto nos traz, quer em termos de uma visão mais universal da atividade seguradora, quer em termos de participação em projetos transnacionais que acrescentam valor e conhecimentos à empresa. Mas, fora disso, não tem existido uma pressão acionista particular ao nível dos resultados, os quais, aliás, têm permanecido na empresa para fortalecer a sua capacidade de crescimento.

A cultura organizacional sofreu alterações?

Tirando a dimensão internacional antes referida, não sofreu alterações significativas. Naturalmente há coisas que mudaram, como termos mais de 150 colaboradores a estudar mandarim voluntariamente. Ou como termos uma “China Business Unit” a trabalhar em Portugal, Angola, Moçambique, Espanha e França. Mas a cultura da empresa e o modelo de gestão não mudaram. A Fidelidade, com o seu âmbito atual, foi sempre uma empresa de atitude privada, dinâmica e inovadora.

A primeira a introduzir o seguro de transportes em Portugal, a primeira a comercializar seguros de vida e também a primeira que emitiu uma apólice de acidentes de trabalho. E vamos continuar a ser o principal motor de inovação e progresso nos seguros em Portugal.

Os últimos números indicam que a Fidelidade viu a sua quota de mercado reforçada, rondando os 30%. Este crescimento espelha já a nova filosofia de gestão?

Como antes referi, não há uma nova filosofia de gestão. Pelo contrário, a equipe está a dar continuidade ao trabalho de fundo iniciado antes da privatização. O que mudou foi o mercado concorrente, que não pôde manter a trajetória de continuada depreciação dos preços e resultados. A Fidelidade, em praticamente todos os ramo Não Vida, tem melhores indicadores de gestão que a média do mercado: prêmios médios mais elevados, menores frequências de sinistros, menos sinistros em curso, mais provisões e melhores níveis comprovados de serviço. Se somarmos a tudo isto a força da sua marca e uma rede de mediação muito profissional, não é de admirar que ganhemos cota de mercado Não Vida num novo ciclo de subscrição.

Na área Vida será diferente. O ano de 2016 vai conhecer alguma alteração da nossa estratégia e posicionamento, pois concluímos que o novo regime de Solvência II europeu penaliza e praticamente inviabiliza o desenvolvimento dessa linha de negócio nos moldes atuais.

A Fidelidade é, hoje, a única empresa portuguesa a atuar no mercado de capitais chinês. O que é que isto poderá significar para o futuro da seguradora e dos seus stakeholders?

Várias seguradoras internacionais, também presentes em Portugal, obtiveram essa qualificação. Poucas pessoas sabem que as autoridades chinesas fazem uma análise muito pormenorizada dos candidatos, análise que pode demorar meses ou anos. O fato de a Fidelidade ter sido qualificada para operar no mercado de capitais chinês é mais uma prova da sua capacidade financeira e de gestão, e devia ser um motivo de orgulho para o país. É conveniente não esquecer que a China é a segunda economia do mundo e a sua classe média vai ser tão numerosa como a da União Europeia. Embora qualificados para operar no mercado de capitais chinês, ainda não estamos a operar ao abrigo desse estatuto porque as oportunidades de investimento não o têm ainda justificado e precisamos aperfeiçoar alguns mecanismos operacionais.

Temos assistido no mercado segurador português a uma crescente concentração. Como perspectiva este desenvolvimento?

Uma década de práticas tarifárias menos prudentes, um contexto de taxas de juro próximas do zero e uma economia com fracas perspectivas de crescimento tornam inevitável o processo de concentração. Se acrescentamos a isso os desafios do regime Solvência II, só podemos concluir que este processo vai ser bastante rápido. Estamos bastante satisfeitos por ter sido a Fidelidade a marcar muito cedo o rumo deste processo e termos atingido uma escala que nos permite sermos relevante no mercado ibérico.

2016 ficará marcado também pela entrada em vigor do Solvência II. Como é que encara este reforço de exigência por parte do regulador?

O Solvência II representa, acima de tudo, capitais mais elevados para o mesmo nível de risco, ou seja, mais proteção para os segurados e maiores exigências para os acionistas. O Solvência II traz melhorias significativas em termos de gestão do risco e de obrigações de informação e de gestão. Porém, também introduz novos conceitos que podem ter impactos bastante negativos em algumas áreas de negócio, como o seguro de vida, cujo modelo de negócio pode ficar, na sua essência, comprometido. É conveniente recordar que as seguradoras Vida, com os critérios que vigoraram até agora, foram um elemento de estabilização dos mercados e de suporte às economias e ultrapassaram a grave crise financeira que se iniciou em 2008 sem precisar de apoio dos contribuintes.

Como é que a Fidelidade se preparou para este novo desafio?

A Fidelidade começou os trabalhos de preparação para Solvência II em 2006, há quase 10 anos, com a criação da Direção de Gestão de Risco, e tem hoje uma equipe altamente especializada que trabalha a full-time para este fim.

Em 2014, precedendo a privatização, distribuímos quase 600 milhões de euros em dividendos acumulados e capital, o que naturalmente tornou essa adaptação mais exigente. Por este motivo, e de uma forma prevista, foi realizado um aumento de capitais próprios pelo valor de 520 milhões de euros em 2015. Mas a volatilidade estrutural dos mercados, em praticamente todas as áreas e geografias, somada à regra de valorização dos ativos market-to-market, regra que não faz sentido para uma atividade de longo prazo, vai trazer para todas as empresas seguradoras Vida uma permanente e insustentável pressão sobre o capital, que aliás está a mudar a face do seguro na Europa.

A Fidelidade tem uma presença expressiva nos mercados angolano e moçambicano. Qual a estratégia do grupo para estes mercados?

Servir as famílias e as empresas de Angola e Moçambique como as servimos em Portugal, com produtos adequados às suas necessidades, a preços competitivos e com excelentes níveis de serviço. Aspiramos ser um motor de inovação e progresso da atividade seguradora nesses países e aproximar as novas classes médias do seguro. Estamos a fazer o nosso percurso, mas não deixaremos de olhar para possibilidades de crescimento desde que se mostrem consistentes com os nossos padrões.

“Aspiramos ser um motor de inovação e progresso da atividade seguradora em Angola e Moçambique e aproximar as novas classes médias do setor segurador.”

Enquanto líder de mercado a Fidelidade tem sido pioneira em termos de desenvolvimento de produtos e serviços inovadores. Destacaria algum exemplo?

O seguro oncológico, por ser o último produto que lançamos e pelo que implica ao nível do trabalho conjunto de duas empresas do grupo, a Multicare e a Luz Saúde. É um seguro que dá resposta integral ao desafio do câncer e é inovador em todos os aspetos, começando pela atenção que dá à prevenção da doença, aos capitais seguros ou à atenção personalizada para cada caso.

Qual as principais linhas estratégicas de crescimento para os próximos anos?

Esperamos crescer em todas as áreas de negócio Não Vida, beneficiando da recuperação tarifária em curso e da melhoria da nossa posição competitiva quando comparada com a que tivemos nos últimos anos.

O seguro de saúde continuará a ganhar peso no portfólio da Fidelidade assim como as atividades ligadas à assistência e prestação de serviços em correlação direta com os seguros. E seremos uma companhia mais multinacional, com 20% a 25% dos prêmios com origem em outros mercados.

Estamos a trabalhar afincadamente na adaptação tecnológica à 4.ª Revolução Industrial, com experiências bastante interessantes em “big data”, “digitization” e plataformas on-line. As novidades irão aparecer.

Como antevê o relacionamento com os brokers de seguros no futuro?

Partindo de um bom nível de relacionamento, que é o que temos agora, acredito que há espaço para o melhorar, pelo que espero que seja mais intenso, eficiente e criador de mais valor para as duas partes.

Como descreve a relação da Fidelidade com a MDS?

A Fidelidade e a MDS têm uma relação de longa data, que remonta à década de 80, ao início da MDS. Ao longo destas três décadas foi criado e fortalecido um verdadeiro espírito de parceria que tem permitido, em nossa opinião, aportar valor a um conjunto importante de clientes, através de soluções diferenciadoras em termos de coberturas, gestão de risco e gestão de sinistros. A nossa relação extravasa a área de intermediação de seguros, estendendo-se a outras áreas de colaboração, como a formação e o resseguro, e está cimentada numa relação pessoal de confiança e apreço mútuo em todos os diversos níveis das estruturas.

Esta forma de trabalhar tem contribuído para a fidelização e estabilidade da carteira ao longo deste período. O grupo Sonae tem, naturalmente, um peso significativo na carteira da Fidelidade que, desde a origem deste grupo, assegura as coberturas de Acidentes de Trabalho e de Saúde. Mas a parceria existente com a MDS tem-nos permitido estar também presente junto de um conjunto alargado de empresas de referência do panorama empresarial português.

Quando pensamos em melhorias em termos de organização, processos e produtos, pensamos sempre de que modo tais alterações poderão contribuir para fortalecer a relação e beneficiar os nossos parceiros de referência, tanto em Portugal como em outros mercados externos em que estaremos cada vez mais presentes e onde este tipo de colaboração faz ainda mais sentido. •