Dossier – Riscos do futuro: Riscos Emergentes e O Advento Da Sociedade Digital

Dossier – Riscos do futuro: Riscos Emergentes e O Advento Da Sociedade Digital

Dossier – Riscos do futuro: Riscos Emergentes e O Advento Da Sociedade Digital

Todos temos uma opinião sobre quais serão os riscos do futuro. Para alguns seguradores, existem riscos emergentes que são evidentes, ao passo que, para outros, a questão é mais complexa. A FULLCOVER interpelou a Swiss Re, Zurich, Lloyd’s, Hannover Re e International SOS sobre os cinco principais riscos do futuro.
A maioria dos inquiridos apontou como principal risco o cibernético/de proteção de dados, destacando a digitalização, a tecnologia financeira (FinTech), as economias de partilha e a «Internet das coisas» como os principais fatores. O segundo risco apontado foram os fenômenos climáticos extremos, incluindo o pouco sucesso na mitigação das alterações climáticas ou na adaptação às mesmas. O risco político surge em terceiro lugar (incluindo a instabilidade social), seguido do terrorismo.
A partir daqui o panorama sobre os riscos futuros começou a divergir. Os inquiridos apontaram: riscos de regulação, macroeconómicos, operacionais, de crise financeira, de migração involuntária em grande escala, de sismos causados por ação humana, de falta de confiança nas instituições públicas e internacionais, de catástrofes naturais, entre outros. Do ponto de vista médico, foram identificados riscos do dia‑a‑dia como o da segurança rodoviária, a malária e as doenças cardiovasculares.
Questionadas sobre quais as medidas que estão a tomar para avaliar e calcular o impacto destes riscos, as entidades abordadas salientaram não existir uma ferramenta única que permita calcular o impacto do risco. São utilizadas diversas abordagens: desde inquéritos/ métricas, colaboração com peritos, partilha de dados (incluindo dados históricos), redes sociais, pesquisa, monitorização/avaliação e planificação e modelização de cenários. Todos admitem que existem desafios na avaliação do impacto dos riscos emergentes ainda por quantificar em termos de prejuízos indenizáveis.

Quando inquiridos sobre «como poderemos transformar estes risco sem oportunidades e se estão a desenvolver soluções de seguro para a transferência destes riscos?», concordaram que «pela sua própria natureza, os riscos globais estão interligados, pelo que é difícil a qualquer país, empresa ou negócio conseguir mitigá‑los ». Uma abordagem multilateral, uma gestão eficaz do risco e a sua transferência são diferentes formas de lidar com o risco. Algumas possíveis soluções são: uma segurança digital consistente e a contratação de um seguro cibernético que cubra os custos de violação de segurança; a gestão do risco na cadeia de abastecimento, associada a uma cobertura de perdas de exploração para combater os riscos das catástrofes naturais e o desenvolvimento de novos produtos para enfrentar o risco emergente decorrente da regulamentação e do impacto da legislação.

Quando questionadas sobre como irá o Big Data e os analytics transformar o setor segurador, a resposta consensual foi a de que «os Big Data irão, acima de tudo, permitir ao setor ter uma compreensão mais precisa do risco». Os dados gerados pelos dispositivos móveis podem ser utilizados para um cálculo mais adequado do custo dos riscos e os produtos poderão ser distribuídos em qualquer momento através de uma multiplicidade de canais de distribuição, o que aumentará o acesso a novos mercados e reduzirá os custos de transação.
A análise de dados permite que os seguradores tenham uma visão mais abrangente dos riscos e da sua carteira, permitindo um trabalho mais próximo com os clientes de identificação e desenvolvimento de estratégias eficazes de gestão do risco. Pode também ajudar a identificar novos pools de riscos e produtos e serviços de seguro inovadores para mitigar estes riscos, o que conduzirá a uma maior eficiência operacional e a um maior rigor na gestão de preços e sinistros.
Mas existem riscos consideráveis relacionados com o Big Data – o entusiasmo relativamente aos dados poderá levar à «produção» de dados artificiais e de modelos falsos que não reflitam a realidade e levem à incorreta atribuição do custo do risco.
Em resposta à última pergunta, «estão os seguradores tradicionais preparados para os riscos decorrentes da “uberização” da sociedade?», os inquiridos referiram que «a digitalização irá criar novos modelos de distribuição e de vendas e dar origem a muitas oportunidades de avaliação do risco, subscrição e gestão de sinistros e operações».
A «quarta revolução industrial» está a mudar a forma como as pessoas trabalham e vivem. A conetividade facilita o trabalho à distância, criando uma maior concorrência a nível global. No entanto, os trabalhadores menos qualificados enfrentam uma probabilidade maior de ficar sem emprego devido à automação. A mudança para uma economia de partilha e colaboração aumenta o número de empregos que não se enquadram no modelo padrão do contrato de trabalho; trata‑se da chamada «economia do biscate».
As mudanças sociais, como o aparecimento da economia de partilha, têm impacto nas questões de responsabilidade social, pelo que o setor terá de responder ao problema com produtos de seguro adequados. Seja qual for o modelo, serão sempre necessários subscritores com um elevado grau de especialização.

RISCOS EMERGENTES

MUDANÇA DE PADRÕES
As alterações no panorama de risco, os riscos emergentes e o futuro das soluções não padronizadas – Por Christian Wertli

Prever o futuro é tarefa de um vidente, não de um segurador. No entanto, se os seguradores não estiverem atentos a riscos futuros terão dificuldade em prestar o apoio mais adequado aos seus clientes.

Através de uma análise eficaz do big data e tendo uma visão clara sobre todos os riscos que afetam atualmente os clientes, os seguradores poderão prever de forma mais eficiente os riscos emergentes – embora isto signifique também que terão de pensar de forma criativa.

Oferecer um produto pré‑estabelecido como solução para um problema é a abordagem tradicional dos seguros e da gestão do risco, mas que será insuficiente no futuro. Os seguradores terão de desenvolver soluções novas e personalizadas, de forma a transformar os riscos em oportunidades. Isto significa que terão de fazer face aos problemas que os clientes enfrentam nesta matéria. As relações deixarão de se basear na compra e venda de produtos, e os seguradores deverão assumir‑se como parceiros estratégicos e criar soluções inovadoras para riscos mais sofisticados.

E o que é que tudo isto significa? Comecemos com alguns dos riscos emergentes já identificados e com possíveis soluções não padronizadas.

Inovação digital
Os modelos de negócio tradicionais estão a ser desafiados pela «uberização» da sociedade. A Internet das coisas, ou a conetividade em rede das coisas do quotidiano, está a dar forma a uma nova plataforma económica. Os períodos de incerteza e instabilidade dos últimos anos obrigaram a sociedade a pensar em novas maneiras de fazer negócio e os empreendedores e as start‑ups inovadoras estão a mudar a face destes.

Os avanços tecnológicos permitem que os dados em tempo real sobre padrões comportamentais sejam combinados com aplicações móveis nas quais os preços são estabelecidos de forma dinâmica, obtendo-se um negócio que compreende verdadeiramente os seus clientes. Os players tradicionais do setor segurador deixarão o pelotão da frente à medida que novas iniciativas empresariais venham a alterar a cadeia de valor e consigam encontrar formas de entrar no mercado com ofertas mais específicas, definidas e apelativas. Os seguradores têm de interpretar o impacto que os novos riscos – como, por exemplo, os riscos que impliquem consequências para além dos ativos físicos – terão no cash flow dos clientes. Só depois poderão desenvolver soluções novas para responder a estes novos desafios.

Alterações climáticas
O desenvolvimento de novos padrões climáticos chamou a atenção da comunicação social, aumentando a perceção do fenómeno das alterações climáticas. Os invernos são mais quentes e os verões mais húmidos do que há 20 anos. Quando ocorre um episódio relacionado com o clima, os danos sofridos pelas empresas são muito reais, podendo implicar desde interrupções na cadeia de abastecimento a alterações nos padrões de consumo dos consumidores.

Estudo de caso: Uma fábrica de cerveja britânica com uma cadeia de pubs estava preocupada com o impacto do clima no consumo de cerveja durante o verão. Descobriu‑se que é menos provável que as pessoas bebam cerveja se a temperatura for superior a 28° C, uma vez que procuram bebidas mais hidratantes. Os verões frios também eram um problema, já que as vendas diminuíam quando a temperatura baixava para menos de 16° C e, como consequência, as pessoas conviviam menos. A solução foi criar uma cobertura personalizada – não padronizada – para a queda nas vendas. Esta cobertura era ativada por um limite de temperatura acordado.

Catástrofes naturais
As mudanças complexas nos padrões climáticos tiveram também grande impacto no número de ocorrências de catástrofes naturais, que parece estar a aumentar. A perda de vidas e os edifícios em ruínas poderão ser, de início, o principal resultado das tempestades tropicais ou dos sismos (que, como é óbvio, não estão relacionados com o clima). No entanto, as consequências são muito mais amplas, e estes fenômenos afetam a produção, as culturas e os produtos dos distribuidores e o interesse do consumidor.

Estudo de caso: Uma loja de luxo em Tóquio viu o cash flow seriamente afetado por catástrofes naturais. A principal preocupação não tinha que ver com ativos físicos, mas com o impacto na predisposição dos clientes. Como é fácil de compreender, havia menos pessoas com vontade de fazer compras depois de um sismo, mesmo que os edifícios apresentassem condições de segurança. Depois de analisar os problemas em conjunto com o cliente, e de falar com gestores do risco e gestores de marketing sobre os aspetos que afetavam o cash flow, o segurador desenvolveu uma cobertura baseada na perda de receitas que é ativada de acordo com a intensidade de um sismo.

Riscos políticos
Os conflitos e as ações militares que estão a acontecer atualmente em várias partes do mundo, e os riscos inerentes aos mercados emergentes conduziram a vários problemas de considerável dimensão: a ameaça de ataques terroristas, um aumento da migração e a reação negativa à imigração.

Para as empresas, estes problemas têm repercussões como a interrupção de cadeias de abastecimento, a grande rotação de pessoal de várias culturas e os danos na reputação da empresa quando algo corre mal. O impacto das alterações legislativas, criadas para dar resposta a alguns dos riscos políticos, também limita a liberdade das organizações.

Estudo de caso: Um sistema nacional de caminhos‑de‑ferro identificou três riscos não decorrentes de eventos danosos que poderiam ter um impacto significativo nas receitas; i) ação legislativa, o que poderia significar que o governo fecharia o caminho‑de‑ferro se previsse um risco como por exemplo uma ameaça terrorista, capaz de afetar a saúde e a segurança dos utilizadores; ii) o impacto de uma catástrofe natural, como uma inundação, uma avalanche ou um deslizamento de terras; iii) ataques cibernéticos capazes de afetar a proteção e a segurança da rede ferroviária. Desenvolveu‑se uma solução personalizada que oferece uma cobertura para a perda de receitas. Esta cobertura seria ativada por eventos especificados de uma gravidade previamente determinada.

Os seguros já não visam apenas danos materiais. Todo o processo inicia-se com a compreensão dos problemas mais críticos que o cliente enfrenta. Os riscos emergentes só serão ameaças para o setor segurador se os seguradores não estiverem à altura do desafio e não aproveitarem a oportunidade para criar soluções inovadoras adaptadas às necessidades dos clientes. A abordagem dos seguradores tem de incidir mais numa vertente de investigação, que lhes permita descobrir quais os riscos que podem ter impacto na receita dos clientes e como poderão segurá‑los. O objetivo é reduzir a volatilidade do negócio de base.

Se quiserem continuar a ter um papel de relevo, os seguradores têm de estar próximos dos clientes e de trabalhar em conjunto com eles à medida que os modelos de negócios vão mudando. Sobreviverão aqueles que forem capazes de desenvolver soluções criativas para ajudar os clientes a manter os seus negócios. No entanto, o sucesso não se atinge através da simples compreensão das necessidades dos clientes. O passo seguinte é o de disponibilizar soluções.

O ADVENTO DA SOCIEDADE DIGITAL

BLOCKCHAIN
O próximo disruptor? – Por Doug Alexander

Os seguros de Riscos Empresariais, com várias partes envolvidas, são extraordinariamente complexos no seu processo.
O processo de cotação, prestação de serviço e gestão de um programa de seguros empresariais é um emaranhado complexo de comunicações e transações entre Clientes, corretores de seguros, co‑seguradores, resseguradores, cedentes, cativas, parceiros da rede, peritos, advogados externos e autoridades fiscais e de supervisão. São partilhadas enormes quantidades de informação; são assinados (e executados) inúmeros contratos, sendo transferidos fundos entre os diferentes participantes.
Também o volume e a complexidade destas comunicações e transações crescem exponencialmente à medida que os negócios dos Clientes se tornam mais globais e incluem operações em diversos países.
Poderia o Blockchain tornar possível a gestão destas transações complexas entre várias partes mais eficiente e segura, e com um menor custo?

Não se trata apenas de criptomoeda
Alguns comentadores caracterizaram o Blockchain como a 5ª maior onda em informática, depois das mainframes, PCs, a internet e as redes sociais, e preveem que será revolucionário em muitas indústrias, incluindo a dos seguros.
O Blockchain foi desenhado inicialmente como a tecnologia subjacente às transações em Bitcoins. E enquanto a Bitcoin e outras criptomoedas continuam a evoluir –independentemente dos recentes ataques de hackers – os profissionais da tecnologia estão cada vez mais interessados no facto de a flexibilidade e adaptabilidade do Blockchain poderem contribuir para uma maior eficiência, transparência e segurança numa grande variedade de setores.

Mas afinal o que é o Blockchain?
O Blockchain é um registo de transações permanente e partilhado entre diversas partes em que utilizadores devidamente autorizados podem aceder à história de uma transação comercial, permitindo assim uma maior transparência e simplificação do processo de conciliação entre todas as partes envolvidas.
Num Blockchain, um lote de transações válidas, ou “blocos”, são ligados entre si formando uma cadeia, daí o seu nome. Cada bloco é carimbado com uma determinada hora e inclui a assinatura única (ou “hash”) do bloco anterior; estas assinaturas servem para confirmar a integridade da cadeia.
Cada membro de um Blockchain possui a base de dados, embora esta não seja controlada por uma única entidade. Além do mais, todos os utilizadores autorizados dispõem sempre de uma cópia atualizada e as novas transações não podem ser validadas até que sejam conciliadas com a última versão. Isto significa que é praticamente impossível cometer fraude e que não é necessário que um intermediário verifique a informação entre as partes.

E porque a informação adicionada a um Blockchain não pode ser alterada, este permite um registo inalterável e auditável de todas as transações. Finalmente, os Blockchains são extremamente flexíveis e podem ser usados não só para documentar o curso de uma transação comercial, mas também para monitorizar bens tangíveis tais como escrituras, equipamento alugado e bens valiosos como jóias ou obras de arte.

É possível otimizar os processos de seguros?
A tecnologia Blockchain oferece a possibilidade de simplificar transações entre as diversas partes envolvidas num contrato de seguro e melhorar a forma como as empresas delegam autoridade e processos de pagamentos e conciliam negócios.
Os potenciais benefícios incluem tempos de resposta mais curtos, assim como uma maior segurança e qualidade dos dados.
Por exemplo, cada participante num contrato de seguro em que existem vários intervenientes, poderia aceder a cópias idênticas contendo informação sobre a data de início do risco e a documentos legais, e assim otimizar o processo de oferta, negociação e formalização da contratação de uma apólice.
O Blockchain e “contratos inteligentes” poderiam também oferecer benefícios para seguradores que trabalham com entidades com poderes delegados de subscrição como os managing agents (MGAs)1 ou entidades terceiras prestadoras de serviços (TPAs)2. Nestes modelos operativos, os seguradores e corretores, geralmente pagam a terceiros para agregar e validar a informação vinda de MGAs e TPAs. Um Blockchain que ligasse seguradores e autoridades com delegação de poderes de subscrição poderia eliminar a necessidade de tais intermediários.
A tecnologia também se presta a contratos inteligentes onde um Blockchain é programado para executar ações específicas após a satisfação de um conjunto de condições. Com contratos inteligentes ativados pelo Blockchain, por exemplo, os pagamentos entre os Clientes, corretores, e (res)seguradores poderiam ser acionados automaticamente mediante a verificação de certas condições. Por exemplo, um Blockchain poderia ser criado com vista à automatização do pagamento de sinistros, desde que as coberturas e o capital seguro tivessem sido validados. Isto beneficiaria os clientes reduzindo o tempo de regularização dos sinistros e os resseguradores através de ganhos de eficiência.
A tecnologia poderia também ser usada para emitir certificados em múltiplos países ou para movimentar quantias entre uma empresa cativa e a empresa‑mãe. Por agora, estas e outras aplicações potenciais são apenas isso – potenciais – já que a indústria(res) seguradora está ainda a começar a utilizar o Blockchain em algumas áreas de teste. Nesta fase inicial, o maior foco está em transações onde há várias partes envolvidas e em que é necessário um registo histórico e indiscutível, passível de verificação. Para transações e processos sem estas características, as bases de dados convencionais ou os terceiros prestadores de serviços continuarão a ser uma opção mais simples e fácil.

Impacto noutros setores
Também há um interesse crescente na tecnologia Blockchain noutros setores da indústria. Coindesk, um site que segue Criptomoedas e Blockchain, relata que durante o primeiro trimestre de 2016, “o investimento total em capitais de risco em startups de Bitcoin e Blockchain excede já os 1,1 mil milhões de dólares.” E têm sido feitos investimentos recentes, de forma surpreendente, em startups relacionadas com Blockchain enquanto que os investimentos em startups relacionadas com Bitcoin unicamente focados em pagamentos e transações estão em declínio.
A próxima geração de aplicações Blockchain, por exemplo, poderia facilitar acordos imobiliários otimizando transações entre compradores, vendedores, intermediários, bancos e seguradores especialistas em title insurance3 e, também documentando o histórico do contrato e a propriedade efetiva dos edifícios. De facto, alguns observadores sugeriram que Blockchain poderia excluir a necessidade de title insurance, já que os dados relativos às propriedades estão validados e armazenados num Blockchain.
O Blockchain também pode ser usado para fazer a localização de bens. As grandes câmaras de compensação de diamantes, por exemplo, presentemente tiram “impressões digitais” dos seus diamantes para provar a sua procedência, e esta informação poderia ser armazenada com segurança num Blockchain que esteja disponível a compradores, corretores, seguradores e autoridades policiais.
A mesma abordagem poderia ser usada relativamente a outros bens, tais como obras de arte e artefatos. As empresas de aluguer também estão a ver o Blockchain como um mecanismo mais simples e eficiente para fazer o seguimento dos seus ativos. E o Blockchain poderia ser usado para monitorizar equipamento e materiais em obras e facilitar agendamentos em projetos onde há muitos empreiteiros e sub‑contratistas.

É o fim do mundo como o conhecemos (e estamos confortáveis com isso)
A Bitcoin e a tecnologia subjacente Blockchain foram introduzidas como software de livre acesso em 2009. Desde então, tem havido a perceção crescente de que um registo seguro e descentralizado que acompanhe bens e transações é uma ferramenta poderosa e flexível. Os observadores estão divididos sobre se os efeitos potencialmente radicais e transformadores da tecnologia Blockchain serão uma realidade a curto prazo – um ou dois anos – ou se estão ainda a uns 5 a 10 anos de distância.
Qualquer que seja o calendário previsto, a XL Catlin está interessada nas possibilidades, e exploramos ativamente várias iniciativas Blockchain para compreender onde e como a tecnologia poderia ser mais relevante. E ainda que seja demasiado cedo para dizer qual a rapidez com que o Blockchain será implementado em (res)seguradoras e empresas de outros setores, acreditamos que será tão revolucionário para as transações financeiras com vários intervenientes como as folhas de cálculo o foram para a contabilidade.

NOVOS RISCOS NUM MUNDO EM MUDANÇA
Proteger o crescimento econômico global – Por Vincent Vandendael

O mundo está a mudar a um ritmo nunca visto. Empresas e seguradoras enfrentam enormes desafios num momento em que os principais motores da mudança – a globalização, a digitalização e a urbanização – estão a alterar de forma muito rápida a natureza do risco global e a obrigar o setor a questionar os modelos de negócio existentes.

Olhando para o panorama macroeconómico, o equilíbrio de poder na economia global está a mudar. A McKinsey estima que, entre o momento atual e 2025, 440 cidades de países em desenvolvimento irão gerar quase metade do crescimento do PIB mundial, e que quase metade das novas empresas de grande dimensão – com mais de mil milhões de libras esterlinas em receitas – terão a sua sede nos países em desenvolvimento. Em 2025, em São Paulo o número dessas empresas será três vezes superior ao de hoje, sendo provável que Pequim e Istambul dupliquem o número de empresas com sede local.
À medida que estas economias emergentes começam a aperceber‑se do verdadeiro potencial económico que têm, o seu crescimento é cada vez mais ameaçado por riscos naturais e humanos e, claro, por problemas económicos e geopolíticos significativos. E estes riscos são agravados no caso de baixa penetração dos seguros.

As cidades como motores econômicos
Outra tendência importante é a da urbanização. As cidades tornaram‑se os principais motores de crescimento, contando com uma crescente concentração do trabalho, do capital econômico e das infraestruturas físicas. E a contribuição das cidades para a produção económica dos países também está a aumentar. Por exemplo, a percentagem da contribuição de Londres para a produção do Reino Unido subiu de 15% nos anos de 1960 para os atuais 45%. Uma vez que as cidades estão a destacar‑se enquanto plataformas internacionais de criação global de riqueza e atividade comercial, qualquer impacto na sua economia tem um impacto direto no crescimento económico do país. Este é um fator que está a fazer com que as cidades se tornem mais vulneráveis a choques catastróficos.

A revolução digital
As novas tecnologias estão a provocar uma rutura com os modelos de negócio tradicionais. Desde a invenção dos computadores e da Internet em meados dos anos de 1970 que o mundo tem passado por um processo de transição significativa do físico para o digital, alimentada por aquilo a que já se chamou a Revolução Digital ou a Quarta Revolução Industrial.

Esta explosão no uso das tecnologias digitais conduziu‑nos a uma era de conetividade sem precedentes. Estima‑se que em apenas 15 anos haja 500 mil milhões de dispositivos conectados, que criarão uma enorme «Internet das Coisas» («Internet of Things» em inglês), e esta conectividade digital crescente está a impulsionar uma explosão de dados. De acordo com a IBM, o mundo cria todos os dias 2,5 triliões de bytes de dados – um valor tão elevado que 90% dos dados mundiais foram criados nos últimos dois anos. A International Data Corporation (IDC) estima que o total de dados criados é duplicado a cada dois anos a partir de uma imensidão de fontes: sensores inteligentes, sistemas de GPS, transações financeiras, utilização da Internet, dispositivos conectados e, claro, redes sociais.

Na esfera empresarial, a tendência global vai no sentido da crescente transição de ativos e infraestruturas do físico para o intangível. A natureza desta mudança é impressionante quando olhamos para as empresas que compõem o índice S&P500 do mercado de valores e as dividirmos entre as que têm um objeto tangível e as que têm um objeto intangível. Em 1975, a proporção era de 83% tangível e 17% intangível.
No ano passado, verificámos que apenas 16% das empesas que compõem o índice S&P500 do mercado de valores têm um objeto tangível, tendo 84% um objeto intangível.

O que está em jogo?
À medida que o mundo se torna mais interligado e as empresas negoceiam à escala global, a exposição a que estão submetidas em termos econômicos está também a aumentar e os choques sistêmicos podem ter uma multiplicidade de consequências – um exemplo seria o das inundações na Tailândia que provocaram graves perdas de exploração por interrupção da atividade em empresas do Japão.

O Lloyd’s City Risk Index 2015–2025 analisou pela primeira vez o potencial impacto económico de 18 ameaças em 301 das mais importantes cidades do mundo. O Lloyd’s trabalhou em conjunto com a Universidade de Cambridge para analisar o efeito sobre o PIB das cidades quer de ameaças humanas, como os ataques cibernéticos, o choque decorrente dos elevados preços do petróleo, o terrorismo e as pandemias, quer das catástrofes mais tradicionais, de origem natural, como os terramotos, os furacões e as inundações.

O estudo mostra pela primeira vez o verdadeiro custo económico destas ameaças e a exposição global massiva aos riscos: 4,6 biliões de dólares do PIB global previsto poderão estar em risco. À escala mundial, todas as ameaças humanas consideradas no estudo estão, em conjunto, associadas a quase metade do total de PIB em risco. Apesar de os riscos humanos constituírem uma preocupação crescente, as ameaças emergentes estão também a ter um impacto cada vez maior. Os ataques cibernéticos, as pandemias humanas, as epidemias vegetais e as tempestades solares representam cerca de um quarto do total do PIB em risco no mundo inteiro.
Estes resultados mostram a necessidade de desenvolvimento de produtos inovadores no setor segurador para garantir proteção contra riscos causados pelo ser humano.

Criar resiliência
A criação de resiliência começa muito tempo antes de uma catástrofe. Na atual economia global cada vez mais interligada, temos de prestar mais atenção aos riscos que ameaçam os nossos motores económicos. É necessário desenvolver um entendimento profundo do impacto de eventos de grande severidade com vista a criar soluções de transferência do risco adequadas para perigos crescentes, como os ataques cibernéticos e o terrorismo. Os seguros têm um papel fundamental a desempenhar para ajudar a mitigar o elevado custo destes riscos quando eles efetivamente ocorrerem. A investigação do Lloyd’s mostra que um aumento de 1% na penetração dos seguros significa uma redução de 13% em perdas não seguradas e uma redução de 22% no valor pago pelos contribuintes depois de uma catástrofe. O pagamento das indemnizações dos seguros é uma fonte fundamental de injeção de capital depois de uma catástrofe e contribui para a recuperação e redução dos custos econômicos por parte dos governos, das empresas e das comunidades.

Mas os seguros são só uma peça do puzzle. Metade do total do PIB em risco pode ser protegido melhorando todos os aspetos das infraestruturas das cidades e da gestão de crises, sublinhando‑se o papel essencial dos governos e das empresas. Nenhum município ou segurador pode agir isoladamente. A resiliência é a responsabilidade coletiva de todos os setores da sociedade, e temos de trabalhar em conjunto para fazer face às gravíssimas ameaças que as nossas cidades enfrentam.

VEÍCULOS SEM CONDUTOR
Qual o futuro do negócio de seguro automóvel? – Por Hélène Chauveau

Vistos como algo saído diretamente da ficção científica no início do século, os veículos sem condutor vão ocupar um lugar importante na sociedade num futuro próximo: de acordo com o Instituto de Engenheiros Elétricos e Eletrónicos (IEEE), até 2040 70% dos veículos serão autônomos.
Na verdade, esta tecnologia representa uma das maiores preocupações da atualidade no que respeita ao futuro do sistema de seguros de Danos e Responsabilidades. Esta nova tecnologia, sustentada na inteligência artificial e na robótica, permite a condução de veículos sem a intervenção humana. A tecnologia é composta por vários dispositivos (por exemplo, captores numéricos) e equipamentos (por exemplo, processadores, software sofisticado) que são capazes de tratar e analisar o entorno do veículo por forma a permitir que a condução seja autônoma.

Tendo em conta que 90% dos acidentes rodoviários são causados por erro humano (de acordo com um estudo de 2014 da KPMG), os veículos sem condutor são vistos como uma boa oportunidade para reduzir o número de acidentes e para melhorar a segurança nas estradas. Para os fabricantes de automóveis ou empresas de outros setores (por exemplo, Google, Tesla, Uber), esta é também uma oportunidade para aumentar a mobilidade, através do desenvolvimento de novos produtos, e para superar novos desafios tecnológicos num contexto competitivo.
Embora alguns fabricantes já tenham produzido veículos sem condutor e se encontrem na fase piloto de testes e de comercialização, os Estados estão ainda a trabalhar na definição de um quadro legal para a realização de testes de veículos autónomos nas vias públicas. Até ao momento, as regras são simples e continuam a exigir que o condutor tenha sempre o controlo do veículo. Ao mesmo tempo, já existem e são comercializadas tecnologias que permitem autonomizar parcialmente os automóveis (por exemplo, regulador de velocidade, sistemas de assistência ao condutor).

O aparecimento dos veículos sem condutor pode alterar drasticamente o negócio de seguro automóvel. A conclusão mais simples é a de que, com a diminuição significativa de sinistros resultante do aparecimento dos veículos sem condutor, os seguradores estarão menos expostos ao risco (menor frequência de sinistros) e, consequentemente, reduzirão os prémios cobrados aos clientes, o que levará a uma perda de 60% no mercado de seguro automóvel até 2040 (de acordo com a estimativa da KPMG). Mas isto se não tivermos em conta as novas ameaças que irão surgir, nomeadamente em termos de riscos cibernéticos: e se se verificar um acontecimento com a dimensão de uma catástrofe natural, como por exemplo todos os veículos sofrerem um ataque informático ao mesmo tempo? Embora se estime que a frequência de acidentes venha a diminuir, o custo dos danos materiais nas próprias viaturas poderá ser mais elevado do que atualmente devido à integração de mais tecnologia e de tecnologia mais cara.

A redução dos prémios não é a única ameaça para o setor segurador no que respeita aos veículos sem condutor. No setor segurador, existe um debate em curso sobre a atribuição de responsabilidades após um acidente com um veículo sem condutor. Quem será considerado responsável? O proprietário do veículo, o condutor, o fabricante, os fornecedores ou operadores de software ou as organizações responsáveis pela manutenção das infraestruturas?

Advogados e seguradores parecem concordar que a responsabilidade deixará de ser dos detentores dos veículos e passará a ser dos fabricantes ou dos operadores, mas também concordam que, de qualquer forma, a determinação de responsabilidades exigirá procedimentos complexos. Neste contexto, os seguradores desempenharão um papel fundamental na conceção de um plano de seguros que seja viável do ponto de vista da sociedade, que assegure a proteção dos lesados e uma compensação rápida das vítimas sem que tenham de suportar os atrasos de longos processos judiciais.

Tendo em conta a redução prevista do negócio de seguro automóvel, os seguradores têm de repensar o respetivo modelo de negócio e aproveitar as oportunidades para inovar e para se adaptarem às necessidades dos clientes. O setor segurador tem vindo a acompanhar a inovação e, também neste caso, a AXA, bem como todo o setor, terá um papel relevante no sentido de garantir que os seguros contra defeitos de fabrico e a ameaça de ataque informático, bem como as novas coberturas de responsabilidade civil, são elaborados de forma a proteger os cidadãos, os condutores e os fabricantes.

Os veículos sem condutor representam uma oportunidade, mas também um risco emergente, que se constitui como um dos primeiros casos concretos a suscitar debates alargados sobre a inteligência artificial e sobre a forma como os robôs com capacidades de aprendizagem automática tomam as suas «próprias» decisões: quem será o responsável pelos riscos envolvidos? Esta é uma questão que está, atualmente, a ser debatida no Parlamento Europeu, tendo em vista a criação de um quadro legal mais adequado.

Gestão de Riscos Emergentes na AXA
A equipa de Riscos Emergentes da AXA está focada nos riscos associados a um nível de incerteza significativo no que respeita ao impacto e à probabilidade. As perdas potenciais associadas a estes riscos são difíceis de quantificar, devido à falta de dados históricos.  A equipa está atenta aos mínimos sinais que indicam novas tendências, nomeadamente através de alterações em fontes científicas e legais, sendo essa monitorização feita sobretudo através de uma plataforma de pesquisa automática na Internet. Esta pesquisa contribui para a antecipação e definição precoce de planos de ação por parte da organização AXA no mundo inteiro, e para a análise de determinados riscos de modo a avaliar o seu potencial impacto destes no Grupo AXA. Até agora estão a ser monitorizados 150 riscos emergentes. Alguns destes riscos nunca deverão chegar a emergir, mas é importante que a AXA os conheça e tenha informação sobre eles para poder proteger os clientes.