Ana Mota: Uma visão feminina dos seguros

Ana Mota: Uma visão feminina dos seguros

Ana Mota: Uma visão feminina dos seguros

De olhos postos no céu 

A paixão pela astronomia e o sonho de trabalhar na NASA pareciam traçar o caminho profissional que Ana Mota ia seguir. “Adorava Física Quântica, tudo o que tinha a ver com astros, ir à Lua, a Marte”, recorda com o entusiasmo de quem ainda mantem esse interesse. No entanto, a área estava pouco desenvolvida em Portugal e a procura de estabilidade profissional prevaleceu: Ana acabou por ingressar no curso de Economia na Universidade Nova de Lisboa.

A sua primeira experiência profissional foi no Departamento Financeiro da Santa Casa da Misericórdia, na gestão de ativos. Nessa época, num encontro casual com Luís Portugal, que estava na Direção da Associação Portuguesa de Seguradores (APS), Ana foi desafiada a integrar a APS enquanto assessora da Direção Administrativa e Financeira ‑ um acaso que acabou por ditar a sua entrada no mundo dos seguros, no qual permanece ao fim de 29 anos com a mesma paixão e entrega. “Comecei a dar apoio às várias comissões técnicas, o que me permitiu ir adquirindo uma visão macro do mercado segurador”, recorda.

Em 1995 surge a oportunidade de integrar a Victoria Seguros, enquanto Diretora Comercial de Corretores – uma experiência que diz ter sido a sua escola nos seguros, com enfoque nos ramos Vida e Saúde. “Na Victoria Seguros adquiri competências técnicas e uma vasta experiência, porque trabalhava com inúmeros corretores e clientes multinacionais. Tive o apoio de grandes mentores, colegas que davam formação on the job como, por exemplo, o José Ribeiro e a Inês Murteira, que ainda hoje são referências no mercado segurador, em seguros de Vida e Saúde, respetivamente”.

“Estava há 12 anos na Victoria Seguros quando um colega da pós-graduação em Seguros e Fundos de Pensões, no Instituto de Formação Actuarial, me falou no projeto da MDS de criação de áreas técnicas de especialidade, algo totalmente disruptivo na corretagem e que, à altura, já revelava a estratégia inovadora da MDS”, afirma. É então que, em 2007, Ana Mota é desafiada por José Manuel Fonseca, CEO do Grupo MDS, a integrar a empresa para assumir a responsabilidade de desenvolvimento da área de Employee Benefits que atualmente assume uma posição de relevo na atividade do grupo.

“O trabalho na corretagem tem sido muito intenso, mas bastante enriquecedor. Há sempre inúmeros desafios e vontade de fazer mais para ir ao encontro das necessidades de cada cliente. Por outro lado, a evolução da sociedade e o aparecimento de novos riscos exigem uma aprendizagem e dedicação constantes”, salienta. Neste contexto, Ana Mota acredita que o corretor assume um papel central “porque tem uma visão global daquilo que o mercado pode oferecer. Há uma grande proximidade com o cliente e um trabalho diário para compreender as suas necessidades. A MDS é muito mais do que um corretor de seguros, é um consultor que ajuda o cliente a encontrar a melhor solução para os seus riscos”.

Uma visão do futuro do setor

Perguntamos a Ana Mota a sua perspectiva sobre a evolução do setor e quais os desafios futuros, nomeadamente na área dos Employee Benefits. Ana refere que o setor tem evoluído, dando como exemplo a área de seguros pessoais: “Os clientes procuram cada vez mais um seguro que cubra as despesas médicas com doenças graves e incapacitantes, têm uma maior percepção da sua importância e por isso são ramos que têm crescido”. Destaca também os riscos decorrentes da crescente internacionalização das empresas: “É cada vez maior a procura por seguros que cubram viagens, expatriados e outras situações fruto da globalização, às quais o mercado tem sabido responder com novas soluções”.

Ana Mota foca ainda os riscos associados à longevidade: “Viver mais tem impacto na sustentabilidade das reformas e há também que pensar como colmatar os riscos da dependência física. Nesta área não tem havido acompanhamento do setor segurador. O desafio é procurar que o setor dê respostas adequadas pois apercebemo‑nos de que há novas necessidades e que as soluções existentes não estão ajustadas”.

Terá o setor segurador capacidade para dar uma resposta alternativa ou ser um complemento à atuação do Estado na área social? “O setor segurador tem um papel essencial que pode ser complementar ou alternativo. Não antevejo que seja possível o modelo alternativo a curto‑médio prazo. Já o modelo complementar, acredito que seja. Hoje em dia já existem soluções complementares à ação do Estado, tais como planos de pensões, PPR ou seguros de saúde. Contudo, para serem eficientes, necessitam de uma regulamentação mais estável do que aquela que existe. Em termos de complementaridade os seguros deveriam ser vistos numa ótica de benefício para a sociedade, o que nem sempre é o caso”, lamenta.

Liderança no feminino

Ana Mota completa este ano uma década de liderança da área de Employee Benefits na MDS. Questionamos qual tem sido a sua estratégia para ter conseguido criar uma equipa de sucesso. “Não herdei uma equipa nem a criei num só momento. Fui construindo‑a à medida que fui aumentando a minha intervenção no negócio. Isso permitiu‑me ir escolhendo quem tinha mais competências, capacidade de desenvolvimento e trabalho em equipa”.

Por outro lado, quais são os desafios e as oportunidades para uma liderança no feminino? “Nunca me senti discriminada positiva ou negativamente por ser mulher. Não sou a favor de quotas. Considero que há áreas em que a intuição, sensibilidade e a própria afetividade que se põe no que se faz poderão ser diferentes pelo facto de se ser mulher, mas a verdade é que nem todas têm estas características. O que está provado é que as mulheres, ao contrário dos homens, têm a capacidade de multitasking. Contudo, creio que as oportunidades devem ser iguais quando as pessoas lutam por elas”.

A influência do desporto na sua vida

Desportista nata, Ana Mota transpõe para a sua vida profissional os ensinamentos que trouxe do desporto – Ana é atleta de ginástica no Sporting Clube de Portugal há mais de 30 anos. “O desporto e, em concreto, a ginástica tiveram um peso determinante na minha forma de estar. A ginástica foi, para além da família, o meu pilar em termos de educação e deu‑me valores que ainda hoje mantenho. Incutiu‑me espírito de sacrifício, pois é preciso muita dedicação e espírito de equipa (sempre fiz ginástica de grupo). Por outro lado, aprendemos a gerir o tempo; nunca deixei de ser boa aluna por praticar desporto”, afirma.

Os seus anos de ginasta levaram Ana a muitos destinos o que fez com que passasse por situações marcantes: “A ginástica proporcionou‑me ótimas experiências em Portugal, mas também a nível internacional, entre as quais destaco a viagem a Macau e à China, em 1984”. Nas suas palavras, a viagem à China foi, naquela altura, um choque de culturas, uma experiência repleta de histórias marcantes da China dos anos 80 que ficará para sempre na sua memória. “Fizemos o caminho de Macau a Cantão num autocarro da II Guerra Mundial, uma viagem de 100 quilómetros que demorou seis horas e durante a qual passámos por aldeias da China profunda. Quando saíamos para ir almoçar olhavam‑nos como se fôssemos aliens, não era comum verem ocidentais. A alimentação também nos trouxe algumas dificuldades. Recordo que numa ocasião ninguém conseguiu comer quando nos serviram um peixe que ainda vinha a saltar; noutra vez serviram‑nos galo que vinha com a crista”.

A ginástica continua a ser um dos seus hobbies, a par das caminhadas ao ar livre, “principalmente nos dias de inverno com sol”, dos livros e das séries de televisão, especialmente de história e de ficção científica (“é o meu interesse pela astronomia que nunca desapareceu”), para além do convívio com a família e os amigos.

Hoje é com orgulho que verifica que o que começou como inesperado se transformou numa vocação, talvez pelo fascínio pelo lado humano dos seguros. “Motiva‑me a vontade de contrariar a imagem que as pessoas têm dos seguros. A nossa atividade nem sempre é bem vista, mas os seguros têm uma importante componente social, porque conseguimos apoiar as pessoas em situações difíceis e fazer a diferença nesse momento”, defende.